Julho - Setembro 1999



O dia quer amanhecer



Fuco Gómez (O Rato da Livraria)

    FUCO GÓMEZ precursor do nacionalismo galego democrático

    Fuco Gómez nasceu o 9 de Julho de 1895 em Ouselhe, Bezerreã, Lugo, e sendo quase um neno partiu como viageiro clandestino rumo da ilha de Cuba. Foi, e é, um exemplo de perseverança, um homem que chega à Havana no ano 1913 totalmente analfabeto e que aos poucos anos achamos colaborando em empresas culturais e políticas. Essa constância reflectirá depois na sua actividade nacionalista galega, na que nunca claudicou, apesar das dificuldades e liortas que lhe supujera a sua ideologia arredista.
    Daquela Cuba possuía ũa grande colónia galega. Os exilados da primeira República e a emigraçom de começos do século converterom este país num dos destinos mais solicitados polos galegos emigrantes. Pola ilha passarom, ou ficarom, Ramom de la Sagra, Curros Henríquez, Castro Chané, Nan de Alhariz, Waldo Álvarez Ínsua, etc. Fuco Gómez, ansioso de conhecimentos, começa a sua formaçom de jeito autodidacta. Para fins da primeira década participava em cheio nas actividades da colectividade e começava a escrever em jornais e revistas como Galicia, Heraldo de Galicia e Ecos de Galicia, entre outros, convertendo-se a pouco num dos animadores mais activos da emigraçom na Cuba.
    Fijo parte activa e directa na constituiçom dos primeiros grupos nacionalistas galegos criados em Cuba, tais como a Primeira Irmandade Galega da Havana (1917), e o Partido Autonomista Galego (1919). O 20 de Junho de 1920 constituiu-se a Juntança Nacionalista Galega da Havana, da qual Fuco Gómez foi eleito viceconselheiro segundo. O primeiro órgão jornalístico do ente foi Nós, escrito em galego, do que sairiam oito números.
    Em 1921 a Juntança Nacionalista Galega editou, sob a direcçom do Fuco, o jornal Tierra Gallega. Esse mesmo ano fundou o Comité Revolucionário Arredista Galego, de nítido carácter independentista. ũa série de proclamas chamando à independência da pátria galega marcou ũa constante do seu labor público. Estas ideias radicais forom expressadas nos mesmos anos em Buenos Aires pola Agrupaçom Cultural Galega "A Terra" e posteriormente pola Sociedade Nacionalista Pondal. Em Dezembro de 1941 cria a revista mensal Pátria Galega, que sob a sua direcçom aparecerá até 1960. A figura de Fuco vem delinhada por múltiplas facetas de actividade criador: ideólogo independentista, jornalista, poeta e mesmo linguista. E todas elas cultivadas arredor dũa grande paixom: Galiza.
    É interessante deitar ũa olhada no ambiente social e cultural da Cuba das primeiras décadas do século, testemunhado fielmente no teatro popular cubano. Nele vêm-se, como nũa Commedia dell'Arte, as figuras arquetípicas do Galego, o Taverneiro ou Ti, o Negro e a Mulata. De cote o Galego e o Negro usam toda classe de trapaças para ganhar o amor da Mulata, e entre eles rifam procurando razões para acusar ao outro de ignorante. Compulsada ũa colecçom de pasquins, datados de 1902 a 1958, a opiniom geral é depreciativa para o galego. Estes textos advertem que da Espanha chega "ũa gan- dalhada de pedreiros, de mulheres que venhem como mandadeiras e que já sabemos realmente para o que chegam". Em Pátria Galega Fuco Gómez reage e fustiga duramente essas atitudes de menosprezo racista, mas também é duríssimo com a própria emissora do Centro Galego da Havana, que tinha expressões qual a de que "apesar de escrever em galego, Rosalia foi ũa grande poeta". E nom só de palavra actua, senom também organizando o boicote de espectáculos que estima ofensivos, como o filme El amor de los amores, que escarnecia as mulheres galegas, ou o argentino Cândida, que além de boas intenções da criadora, objectivamente institucionalizava a mofa dum povo. No entanto a embaixada espanhola ou o Centro Galego da Havana nom tinham opiniom a respeito desses agravos.
    Na Segunda República voltou para a Galiza, com o intuito de defender o independentismo, mas com rotundo fracasso. Os galeguistas da Terra considerarom-no um aventureiro, as associações galegas da América nom o encostarom. Às avessas, tinham-no por franco-atirador. E em Cuba, nas resenhas de celebrações organizadas por galegos de Cuba é raro que apareça o seu nome, apesar do incessante labor desenrolado e apesar de o seu discurso ser muito mais interessante, vivo e polémico do que os circunstanciais da maioria dos personagens celebrantes ou homenageados. Gómez rebela-se contra os dirigentes dessa emigraçom que renunciam e recusam o seu idioma. O carácter entom inusitado do seu discurso talvez nom deixava ver o preciso diagnóstico que lhe dava sustento: a identidade baseada na língua. Foi, é ũa das pessoas que luitou mais na emigraçom pola supervivência da nossa língua, que o preocupava agudamente. Sustinha a necessidade de criar um galego culto que dignificasse a língua.
    Neira Vilas dixo dele: "Conhecim-no pessoalmente quando cheguei à Havana em 1961. Visitava-o amiúde no seu lar da rua Plasencia. Ele nom saía; era asmático e padecia do mal de Parkinson. Vivia rodeado de papéis, fardelos de papéis, moreias de apontamentos acerca de assuntos históricos, geográficos e sobretodo linguísticos, referidos sempre à Galiza. Tinha verdadeira obsessom polos aspectos morfológicos, léxicos e ortográficos da nossa língua. E de todo isto tínhamos longas conversas horas inteiras. Amália, a sua doce e dócil companheira, corunhesa, miúda, calada, sempre vestida de negro, observava-nos desde algum recanto, matinando possivelmente que o seu homem nom era o único tolo. Tinha mau génio meu amigo, e às vezes discutíamos, e Amália achegava-se conciliadora, peró aginha via que todo nom era mais que ũa trovoada passageira..."
    Fuco Gómez, o que fora um dos adaís mais radicais do arredismo galego, faleceu na Havana o 9 de Janeiro de 1972.
    O RATO DA LIVRARIA
    Fontes:
    Luís Pérez Leira, Júlio César Gonçález Pagés e José Antom Vao Abelheira, em "A Nossa Terra" -Nº 844 - Suplemento.


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Ernesto Sábato exalta a memória
de Rosalia de Castro

A GRANDE POETA DUM POVO INJUSTAMENTE HUMILHADO

Leva já Auriense
trinta anos na história
erguendo no Maio
a voz da memória.
A voz da memória
e a crítica aguda
dizendo as verdades
em contra da mula.
Em contra da mula
que temos de alcalde,
co conto das viagens;
trabalha de balde!
Trabalha de balde
enchendo o seu peto;
subiu o seu soldo
chuchando do teto.
Chuchando do teto
sem cortar-se nada:
à Pepita Bravo
pintarom-lhe a casa.
Pintarom-lhe a casa
sem pagar um cam;
achantou o bico,
saiu no jornal.
Saiu no jornal
a poda selvagem;
ficamos em sombra
na nossa cidade.
Na nossa cidade
tirarom os quartos
com tanto camélio
e pavimentado.
E pavimentado
ficou o Passeio.
E o cerne de Ourense?
Estou que rabeio!
Estou que rabeio
caindo a pedaços; 
o PERI nom chega
e nom leva passos.
E nom leva passos
com tanto papom;
também a autovia
quedou em Dozom.
Quedou em Dozom
por mão do Cuinha,
de cara a Santiago
vai bem direitinha.
Vai bem direitinha
a via do trem: 
quitam "cercanias"
e o AVE nom vem.
E o AVE nom vem
nem falta que fai,
que temos o Fraga,
que che é como um pai.
Que che é como um pai,
igualinho aos de antes;
zorrega na gente
que puxa pra diante.
Que puxa pra diante
e nom tem emprego, 
fartos dos cursinhos
da López Besteiro.
Da López Besteiro
e dos outros todos,
por queimar o lixo
pujerom-se tolos.
Pujerom-se tolos
porque hai eleições: 
prometo, prometo,
que perdo o "silhom"!
Que perdo o "Asilhom", 
também chora o Fraga; 
com tratos que fai
a Galiza estraga.
A Galiza estraga
o governo amigo,
pois co dos bigodes
nem comemos figos.


Nem comemos figos.
Isto anda ao revés!
Agora bebemos 
o leite francês.
O leite francês
invade o mercado:
A Uniom Europeia
mandá-la ao caralho!
Mandá-la ao caralho
para subsistir; 
os nossos labregos
querem produzir.
Querem produzir
o vinho dos ázeos,
cousa que nom deixa
Loyola Palácios.
Loyola Palácios
Rajoi e Tocino,
Becaria e Cascos.
Som todos mui finos!
Som todos mui finos
e mui lingoretas.
Nós estamos fartos
de trampas e tretas!
De trampas e tretas
sacam interess',
machacam a Cuba,
eu bem sei por quê.
Eu bem sei por quê:
Em Santo Domingos
nosso Abel Matutes
tem hotéis e bingo.
Tem hotéis e bingo,
Loto e Primitiva;
com este governo
futbol todo o dia.
Futbol todo o dia
pra codificar,
temas importantes
sem partamentar.
Semparlamentar
nem mediar palavra,
do Pereiro o alcalde
sacou a espingarda.
Sacou a espingarda
e pegou um tiro;
Se é democracia,
mira que cretino.
Mira que cretino
o Marichalar; 
rumor de concunho:
Indarangarain.
Indarangarain
joga o balom-mão,
e o Duque da nabiça
nom quere sachar.
Nom quere sachar
na Deputaçom;
vende-te ao Baltar, 
fai ũa moçom.
Fai ũa moçom,
Fojo que se vaia,
cousa nunca vim:
Um homem com saia!
Um homem com saia,
isto sim que é burla;
nunca tal se viu
na fonte das Burgas.
Na fonte das Burgas
hai água mui quente,
fala mui clarinho
para toda a gente.
A toda essa Gente
que tem caciqueado
vimos criticando
nestes trinta anos.
Nestes trinta anos
dixemo-lo todo;
já falou o Maio,
que é a voz do povo.



Coplas dos Maios '98
Dedicadas ao Antom da Ponte, fundador da Agrupaçom Cultural Auriense,
e em solidaridade com os rapazes de Ogrove que forom detidos e censurados no Entroido '98.

Escuitem, vizinhos,
o que imos cantar:
o Maio da Auriense
já botou a andar.
Já botou a andar
e anda com cuidado,
que este nosso Ourense
está levantado.
Está levantado, 
cheio de buratos.
A buscar os votos
andam como os ratos!
Andam como os ratos
na Deputaçom.
Já saltou a lebre
das oposições!
Das oposições 
que aprovou Cacharro, 
porcelana fina,
que nom é de barro.
Que nom é de barro
o feixe de lenha
que levou nas costas
a gente labrega.
A gente labrega,
mais a mocida',
levou paus de avondo
só por protestar.
Só por protestar
e pedir mais leite. 
Isso em Europa
nom há quem o "aceite"!
Nom há quem o aceite!
Dixo a Loyola:
Inda nom pedim
a vossa cachola!
A vossa cachola
e a de todos nós
quer o senhor Guedes
contra o paredom.
Contra o paredom
ponhem uns rapazes
por cantar as coplas
e por pôr disfarces.
E por pôr disfarces
de "gharda sivil".
O Entroido que vem
imos ser dez mil.
Imos ser dez mil,
ou se quadra cem
os que trabalhamos; 
"España va bien".
Espanha vai bem
e Aznar, nom che digo!
Jogando ao "padel"
com muitos amigos.
Com muitos amigos
eles fâm negócios,
quatro som os ricos
e o resto no "ócio".
E o resto no ócio, 
ócio sem querer



fazendo cursinhos
que manda o INEM.
Que manda o INEM,
que nom é de riso
e por isso o povo 
se fai insubmisso.
Se fai insubmisso
para nom copar	
os postos da gente
que quer trabalhar.
Que quer trabalhar
e ganhar a vida
agora lhe querem
cobrar a aspirina.
Cobrar a aspirina
e até os laxantes:
se queres viver
fai-te passeante.
Fai-te passeante,
bebe muita água,
nom te queixes tanto,
nom fagas o maula.
Nom fagas o maula
como os do governo:
se lhes pôs o "OU"
mandam-te ao inferno.
Mandam-te ao inferno
de queimar o lixo,
que é um mau costume
e a morte de fixo.
E a morte de fixo
que monta SOGAMA.
Nom dâm aprendido,
mira pra Donhana.
Mira pra Donhana
e mais prá Tocino.
Chamemos-lhe "Bêicom"
que é muito mais fino.
Que é muito mais fino
perguntar-lhe ao Fraga
depois de jantar
o que é que ele traga.
O que é que ele traga
o Marichalar;
tem-che boa léria
ao ir-se deitar.
Ao ir-se deitar
coa a Banda Real, 
que che gastam saia.
Que tradicional!
Que tradicional
é o dos enchufes; 
se é que tés padrinho
prenderâm-se as luzes.
Prenderâm-se as luzes
da "gharda sivil"
quando o novo Entroido
sejamos "dez mil"




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Vocabulário: Viajando polo dicionário...
(Manuel Iglésias)

Acorar, v.t. 1) Ficar sem alento. Respirar com dificuldade. 2) Afligir oprimir, v.i. 1) Pôr-se vermelho ou corado com o desejo de chorar. 2) Emocionar-se intensamente sem chorar, v.r. Sufocar-se, afogar-se de calor, cansaço, fadiga.
Acovilhar, v.t. 1) Abrigar ũa pessoa ou animal com algũa cousa. 2) Acolher. Agasalhar. 3) Recolher. 4) Tapar o lume com cinza para se manterem as áscuas.
Alforfa, s.f. 1) Erva da família das leguminosas, parecida ao trevo, com flores pequenas e amarelas, que se cultiva como forragem para o gado.
Alfoz, s.m. 1) Território que com as suas aldeias está arredor dũa vila ou castelo, e normalmente é da sua jurisdicçom. 2) Arrabalde ou bairro anexo sob a jurisdicçom ou amparo da cidade, vila, castelo, etc. 3) Julgado que compreende muitas freguesias e lugares.
Alfúfaro, adx. 1) Contente, alegre. 2) Túçaro. 3) São, sem doenças.
Bisirto, adx. 1) Nebuloso, coberto de nuvens. 2) Coberto, amiúde, de brêtema. 3) Sombrio, com pouca claridade.
Borborinho, s.m. 1) Sussurro de vozes, murmulho. 2) Remoinho de vento súbito.
Caligem, s.f. 1) Nevoeiro mesto. 2) Escuridade. 3) Belida, névoa nos olhos. 4) Catarata.
Corusco ou Corisco,: s.m. 1) Lôstrego, faísca eléctrica. 2) Centelha que racha as nuvens se é que se produzem trovões 3) Vento frio com chuiva ou saraiva. 4) Aguaceiro passageiro.
Esguio, adx. 1) Alto e delgado. ("é um moço esguio", "ũa árvore esguia"). 2) Comprido e delgado ("vinham num barco esguio"). 3) Di-se dũa saia ou vestido sem roda, que cai pegado ao corpo, sem graça.
Recachar, v.tr. 1) Levantar a saia. 2) Levantar os ombros com afectaçom. 3) Abrir muito os olhos com atençom, mas nom com surpresa. 4) Levantar o animal o rabo encurvando-o. 5) Ensinar o que o pudor obriga a ter oculto; v.i. 1) Estirar-se com altivez ou orgulho. 2) Colocar-se comodamente. 3) Responder a ũa cilada com outra cilada.
Saimeira, s.f. 1) Queda de água desde certa altura, especialmente por ũa rocha abaixo. Sinóns. fervença, cachoeira. 2) Bosque mesto.


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Página dos assistentes às aulas de galego
DO LIVRO HONRAR AO IRMÃO DE BEATRIZ OLGA ALLOCATI
DA GALIZA (Carta ao irmão)


Deixa-me contar-che a história de Camila, a bisa como a chamavam os bisnetos, teus filhos. Nós, lembras?, dizíamos-lhe Lita...
Os pais de Camila, Diego Anido Cabana e Maria Maceda, moravam com os filhos na Granha, término de Abadim, província de Lugo. Eram lavradores, das madrugadas tímidas de luz no suor da terra até as lágrimas de fadiga.
Por um velho documento notarial que felizmente apareceu-me nas mãos, Diego autorizava-a a vir à Argentina para achegar fundos à família. Em 1909, ela unia-se em Buenos Aires a Amadeu. Ao ano nasceria o nosso pai.
A bisa viveu da devoçom e solicitude do nosso pai até os oitenta anos, quando se partiu, devagarinho, dizendo mai, mai...
Com ela forom-se estalagens de vento verde, rastos celtas em delgadas cruzes, retalhos multicolores de campina. Outeiros, videiras, campos de girassol, e esses piornos, singulares celeiros que às vezes aparecem como catedrais recém-nadas.


Galiza
pronunciada assim
com o C que esquecimos
para ajustar a brisa à palavra.
E trager um molho dela connosco.



UM VISIONÁRIO VINDO DA GALIZA



Veo de Cávia, Ponte-Vedra, em 1884 só de catorze anos. Qual tantos paisanos, sabia trabalhar a madeira. Alguém o levou a ũa chácara de San Isidro. Depois dum tempo, Manuel Iglésias López, já casado com Maria Mantelini, com a que teria treze filhos, volveu ao ofício de carpinteiro ao ingressar no Ferrocarril Central Argentino, com destino na vila de Campana. Ali trabalharia 37 anos de capataz de operários.
Muito gostava de ler, e quando os filhos começarom a escola caiu-lhe nas mãos um livro de física, disciplina que dominou intuitivamente, e que observava praticamente na mecânica ferroviária. Talvez este pendor levou-no para a ideia de fabricar um automóvel. Do ano 1903 a 1907 -precisamente no tempo em que Henry Ford construia seu protótipo-, Manuel, nas horas livres, depois de deixar o obradoiro ferroviário, no alpendre da casa começou a enformar o seu sonho. Com paciência, sem turbar-se, com a ajuda dum torno, peça a peça. Até que ũa noite deitou-lhe gasolina ao carburador, deu um golpe de manivela e ouviu-se um estalo: a máquina que armara vibrava. Por certo, neste momento emotivo o Manuel estava rodeado da família. Nascia destarte o primeiro automóvel argentino, reconhecido e registrado vastamente ao cabo do tempo.
A segunda parte do experimento foi pô-lo na rua. Começara, como dixemos, no alpendre, e rematou na alcova grande. Foi preciso deitar abaixo um muro, derrubar redes de arame e convencer o vizinho. O dia 20 de novembre de 1907 o bairro da vila provinciana perdeu a calma usual, só interrupta por carros, sulkys e chatas (os baixos velhos caminhões de tiro). Os rapazes alvorotarom, e os cães pegarom a ladrar para o estranho e ruidosíssimo aparelho; um deles pagou com a vida o preço da inexperiência, donde o novo carro tiraria o nome de "la mata-perros". A máquina atingia a velocidade de quinze quilómetros hora polas poeirentas ruas do povo bonaerense. O pior era o ruído que produzia o motor cada vez que o punha em marcha. O senhor Manuel viu realizado o seu sonho com esse logro. Em 1930 uns senhores vinherom-lhe propor instalar o seu automotor no Museu Histórico Nacional, daquela na cidade de Luján. Desculpou-se alegando o seu invento nom merecer tamanha distinçom e negou-se a que o levassem. Em 1935, talvez farto do ruído, preferiu guardá-lo para sempre. Nunca imaginou que o seu engenho e adiantamento puderam ter transcendência; também nom tencionou nunca assentar as bases dũa produçom em série. Todo o jogo consistiu na harmónica uniom de três ingredientes: talento natural, iniciativa criadora e amor-próprio, quiçais explodidos pola faísca estimulante da emigraçom. Noutro contexto cultural, aquele galego pontevedrês teria fundado um império económico e combatido rijamente polas rédeas do poder. Ele, às avessas, conformou-se com ser feliz. Morreu o 15 de janeiro de 1955, sem atribuir importância ao seu passa-tempo. Anos depois viriam as honras para ele, para a cidade de Campana; ũa rua dela leva o seu nome, ergueu-se o monumento ao "Primeiro Automóvel Argentino" na praça principal de Campana. Ũa maquete doada por um seu filho ao Centro Galego de Buenos Aires resgata minimamente nesta grande urbe a memória dum galego que qual tantos outros deixou na América o melhor de si, além da semente serôdia dũa indústria.

HELENA CAROLINA


 

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ENCONTRO COM O MAGO MERLIN NAS TERRAS MINDONIENSES

por Manuel Iglésias Iglésias

O 17 de agosto encontramo-nos em Santiago com os amigos Bernardo Penabade e Maria do Carmo Cozinha, que conhecêramos no ano 1990, no III Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa celebrado em Vigo e Ourense. Os que nele participarom lembrarâm a acolhida que nos derom e quanto nos agasalharom, junto de outros membros da Associaçom Galega da Língua. Há pouco visitarom Buenos Aires. Fâm um casal muito agradável com dous filhos, Joel de 6 anos e Artur de meses. Os dous som professores de Língua e moram em Burela, Lugo. Em Santiago -onde visitamos os túmulos de Castelão e Rosalia em Sam Domingos de Bonaval, e o Museu do Povo Galego- convimos em reunirmo-nos no dia seguinte em Vilalva às cinco da tarde. Eles estavam de férias nũa vila longe de Burela. Despedimo-nos e regressarom à sua estância e nós à residência em Casal de Rique, Caldas de Reis, Ponte-Vedra. Tal qual estava programado, de manhã bem cedo, eu e mais dous parentes partimo-nos para Pedra-Fita do Zebreiro a visitar as palhoças. A paisagem que pudemos apreciar no percurso da viagem é um presente de Deus que ficará na nossa retina polo resto da vida. Também visitamos Samos, Portomarim, o centro de Lugo (catedral e muralhas), até chegar a Vilalva, ponto do encontro acordado. Ali nos aguardava Bernardo com o seu carro; Maria do Carmo ficara com os cativos no lugar de férias. Com Bernardo de cicerone visitamos Mondonhedo, Foz e Burela, onde passamos a noite na sua casa, para continuar viagem no dia seguinte por Sargadelos (onde fomos recebidos por Díaz Pardo), por Viveiro, Ortigueira, Santo André de Teixido, Cedeira, Ferrol, Corunha, até a Torre de Hércules. Nesse lugar assistimos a um sol-pôr inesquecível... Mas quero deter-me em Mondonhedo, pátria de Conqueiro, Pascoal Veiga, Leiras Pulpeiro, Noriega Varela, Crescente Veiga, Iglésia Alvarinho, e tantos. Nesta vila, definida por Conqueiro como cidade famosa polos seus bispos e polo cavalar de Sam Lucas, rica em pam, em águas e em latim, pudemos apreciar a catedral, o monumento a Álvaro Conqueiro, o cemitério com os mausoléus de Conqueiro, Pascoal Veiga e Leiras Pulpeiro. Os que em Buenos Aires assistimos às aulas de galego temos notícia do mago Merlim da tradiçom bretona sobretodo pola leitura do Merlim e Família, de Conqueiro, em texto reintegrado pola cátedra. Pois bem, imaginai a nossa enorme surpresa de topar ali o próprio mago Merlim em pessoa... ele! Ali, diante da catedral, perto do monumento de Conqueiro, está a livraria-museu de Manuel Monteiro Rego, nome nos documentos do mago Merlim, que usa de roupas ajeitadas à sua condiçom e que tivo a deferência de mudar vestuário para sair nũa foto connosco. Depois de falar-lhe do nosso labor em Buenos Aires em prol do idioma galego e da Associaçom Amigos do Idioma Galego, presenteou-nos vários livros e revistas que tratam da vida e obra de Conqueiro, que agora fâm parte da nossa biblioteca. Em prova de agradecimento pola sua simpatia e generosidade connosco, prometemos enviar-lhe um exemplar do nosso boletim Adigal, que supomos passará a fazer parte do dito museu.


 

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N o t í c i a s

FESTIVAIS DE MÚSICA CELTA

 

ANCARES-BÉRZIO

A gaiteira galega Cristina Pato e o grupo Leilia, entre outros artistas, intervirom no II Festival de Música Celta Ancares-Bérzio que começou o dia 5 de Agosto na localidade galego-leonesa de Vilela.

A Associaçom Cultural "Ankares Bérgidum", segundo informou seu porta-voz, José Manuel Gutiérrez, aguardava a concorrência de quinze mil pessoas no decurso do festival. O festival, que decorreu do 5 ao 8 de Agosto deste ano, reuniu a músicos do estado e do estrangeiro, entre os que destacam os acima citados.

 

LORIENT

O Festival Intercéltico, do que participarom arredor de 4500 artistas de Bretanha, Galiza, Astúrias, Escócia, Gales, Cornualhes, Irlanda e Austrália, encerrou-se o 14 de agosto com a Grande Noite de Bretanha, no centro da vila de Lorient. Os organizadores assinalarom um crescimento do 25% na quantia de visitantes, que segundo as estimações chegarom a ser entre 400.000 e 500.000, durante os dez dias do festival, dessarte virado no mais concorrido da Europa toda.

A figura do gaiteiro Carlos Núnez foi mui aprezada, tanto polos assistentes quanto pola prensa francesa. Le Monde definiu-no como um virtuoso da gaita que amplia as possibilidades da música celta, entanto que Libération sublinha a sua busca das raízes nom celtas no flamenco espanhol e na música marroquina. Na representaçom hispânica figurarom também os grupos de danças Xana (Astúrias) e do Concelho deVigo (Galiza).

Os escoceses Skydance com a figura de Alasdaire Fraser e Wyatt Earp também entusiasmarom ao público.

Entre os bretões destacou-se particularmente Melanie Savennes, entanto que decepcionou um pouco Denez Prigent, que mistura os instrumentos tradicionais com música bacalhau.

O país convidado este ano foi Austrália, e no 2000, em que o festival se organizará sob o lema "Celtas do Mundo", estarâm convidados os gaiteiros de Argentina e México.

Criado em 1971, o festival é ũa grande fonte de desenvolvimento para Lorient, cidade da Bretanha, no noroeste da França, que fora completamente destruída polas bombas na segunda guerra mundial.

O Correio Galego, 15-VIII-99, pg. 20

 

O INTERCÉLTICO DE MOANHA CHEGA À SUA 150 EDIÇOM

O 27 e 28 de Agosto celebrou-se no Concelho de Moanha, no Morrazo, o décimo quinto Festival Intercéltico. No primeiro dia actuarom as finesas de Värtinä, que já deixarom bom saibo de boca ao público galego nas suas visitas anteriores, e Berrogüeto, que está a obter ũa resposta maciça de público nos seus concertos deste verão. No segundo dia ocuparom o cenário os gaiteiros Cristina Pato e José Manuel Budinho.

A Nossa Terra, 12-VIII-99, pg. 22

 


PEDE-SE A OBRA DE CASTELÃO

SER DECLARADA "BEM DE INTERESSE CULTURAL"

O grupo parlamentar do BNG apresentou no parlamento galego ũa proposiçom nom de lei para que se declare bem de interesse cultural o conjunto da obra de Afonso R. Castelão. A deputada Pilar Garcia Negro explica na sua iniciativa que o reconhecimento oficial da importância da obra castelaniana nom vem sendo acompanhado pola difusom maciça e popular que quadraria.

Por isso no texto da proposta fai-se um chamado para remediar "tam penoso anacronismo", num momento no que se está a piques de celebrar o quinquagésimo aniversário do seu passamento em Buenos Aires, a fazer-se o 6 de janeiro do ano 2000. Na proposiçom insta-se à Junta a realizar gestões perante a Deputaçom e o Museu de Ponte-Vedra para que todos os fundos de Castelão ali albergados possam ser visitados ou consultados. Além disso, solicita-se a ediçom maciça, a preços acessíveis, dũa escolma da sua obra plástica, literária e ensaística.

(O Correio Galego, 5-VIII-99)


POR ŨA DECLARAÇOM A PROL

DAS 5000 CULTURAS INDÍGENAS

O secretário geral da ONU, Kófi Annan, propôm-se elaborar ũa declaraçom de Direitos dos Povos Indígenas tam pronto quanto seja possível, que servirá de quadro para a acçom nacional e internacional em prol destes povos. Ontem (9-VIII-99) celebrou-se em todo o mundo o Dia Internacional das Populações Indígenas, organizado pola ONU. Assim mesmo, pretende estabelecer um foro permanente para as populações indígenas no Sistema das Nações Unidas que serviria a assegurar a participaçom destas populações no mundo, e que sejam parte activa à hora de defrontar os reptos do próximo milénio. Annan, na mensagem dirigida com motivo da celebraçom deste dia, sublinhou além do mais a necessidade de reflectir sobre o contributo que realizam estas populações ao resto do planeta, e sobre os seus problemas. Destacou que pode ser um bom momento para que o resto das populações se comprometam com estes povos, que padecerom séculos de adversidades em todo o

mundo. "Reconhecemos a riqueza cultural e persistência da herança indígena mundial. Renovamos o nosso compromisso de assegurar que estas tradições ancestrais ingressem no novo século, nom só como ũa forma de supervivência, senom com renovadas forças que permitam lograr o seu ressurgimento", assinalou. Annan animou os governos a aprender da forma de vida destas populações, sobretodo no que se refere ao meio ambiente, já que forom os primeiros em propor o desenvolvimento sustido. "Através dos seus contributos musicais, artísticos, de linguagem e das suas formas de vida, as populações indígenas enriquecem a vida do nosso planeta dũa maneira especial que reflecte a sua particular relaçom com o meio ambiente", dixo. Este dia foi proclamado pola Assembleia Geral da ONU o 23 de dezembro de 1994, e observou-se por primeira vez em 1995. Escolheu-se o 9 de agosto em comemoraçom da primeira assembleia do Grupo de Trabalho para as Populações Indígenas do Subcomité sobre a Prevençom da Discriminaçom e Protecçom das Minorias da Comissom de Direitos Humanos da ONU.

Para promover o interesse das populações indígenas, a ONU declarou o período que vai do ano 1995 ao 2004 "Década Internacional das Populações Indígenas" com o intuito de fortalecer a cooperaçom internacional para a soluçom dos problemas destes povos em direitos humanos, meio ambiente, desenvolvimento, educaçom e saúde. Perto de 300 milhões de pessoas, pertencentes a 5000 culturas dos cinco continentes, integram o populaçom indígena do mundo.

(O Correio Galego, 10-VIII-99).


 

UM CENTRO DE ESTUDOS DE OXFORD

O Centro de Estudos Galegos de Universidade de Oxford foi fundado no 1991 e têm sua sede no Colégio da Rainha (Queen's College) da dita Universidade. Seu principal objectivo é a promoçom e divulgaçom de todos os aspectos da cultura galega na Grã-Bretanha, tanto no âmbito académico como fora dele. A actividade académica do centro consiste em impartir aulas de língua e cultura galega e promover o interesse polas investigações sobre a cultura galega.

(La Región, 13-IX-99)


 

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PUBLICAÇÕES À VENDA

(em Chacabuco 955, nos dias e horas de aulas)

 

Revistas AGÁLIA, números do 5 ao 19, c/_a $10,00

Revistas AGÁLIA, números do 20 ao 24, c/_a $11,00

Revistas AGÁLIA, números 26, 27, 28, 30, 33 e 35, c/_a $12,00

Revistas AGÁLIA, números 25 e 29, c/_a $15,00

Quadros de Gramática Galega (Higino Martínez Estêvez,

Ediçom de Amigos do Idioma Galego) $10,00

Guia Prático de Verbos Galegos Conjugados (AGAL) $12,00

Prontuário Ortográfico Galego (AGAL) $23,00

História da Galiza (em banda desenhada) $ 7,00

Quatro estudos de história de Galiza $10,00

O mundo narrativo de Álvaro Cunqueiro (Moram Fraga) $15,00

Lua de Além-Mar e Rio de Sono e Tempo (Guerra da Cal) $23,00

 

LOCAIS DE VENDA DOS

"QUADROS DE GRAMÁTICA GALEGA"

Livraria do Centro Galego de Buenos Aires

Av. Belgrano e Pasco - Buenos Aires

 

Livraria Rodríguez

Sarmiento 835 - Buenos Aires

 

Livraria "EL ATENEO"

Florida 349 - Buenos Aires

 

Livraria "Del Sur"

Carlos Calvo 4242 - Buenos Aires

 

Livraria "Tomás Pardo"

Maipu 618 - Buenos Aires


 

IDIOMA GALEGO PORTUGUÊS (R. Flores)

Vem comer o caldo, neno,

deixa ir o cam pra fora;

que vaia espelir as patas

e cuidar do que há na horta.

 

E trai la-la-lá,

e trai la-la-lá;

o galego nunca

castrapo será.

 

Nom fagas o xordo, neno,

e vem-te comer o caldo;

que logo vai ser a hora

de ires apastar o gado.

 

E trai la-la-lá,

e trai la-la-là;

o galego nunca

castrapo será.

 

 

DIALECTO CASTRAPO DA "XUNTA"

Ven come-lo caldo, neno,

deixa i-lo can pra fora,

que vaia espili-las patas

e coida-lo que hai na horta

 

E trai la-la-lá;

e trai la-la-lá;

o galego nunca

castrapo será

 

Nom faga-lo xordo, neno,

e vente come-lo caldo,

que logo vai se-la hora

de ires apasta-lo gando.

 

E trai-la-la-lá,

e trai la-la-lá;

o galego nunca

castrapo será.

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