Janeiro - Junho 2000 - Buenos Aires


     

    CONTEÚDO

    Eliminar o galego da funçom pública

    Valentim Paz Andrade (O Rato da Livraria)

    Galiza, crónica dum destino (Isaque Diaz Pardo)

    Homenagem a Castelão

    Reivindicando o imenso valor da cerna de Carvalho Calero (Bernardo Penabade)

    Viajando polo dicionário (Manuel Iglésias)

    A página dos assistentes às aulas de galego

    A pátria de Teodosio, O Grande

    Notícias várias

    Informações institucionais


     

    ELIMINAR O GALEGO DA FUNÇOM PÚBLICA?

    Se já hoje é difícil lograr que grande parte dos funcionários atendam os cidadãos na língua galega apesar de nenhum deles supostamente ter podido chegar ao cargo sem ter acreditado conhecimento da mesma , no futuro esta obriga desaparecerá. A conselharia da Presidência propujo modificar as condições para aceder à funçom pública. Entre outros câmbios propom a supressom da prova de língua galega, até agora obrigatória. A partir da próxima convocatória de postos na administraçom, qualquer pessoa poderia aprovar o ingresso sem necessidade de demonstrar que conhece perfeitamente o galego. Chegará apresentar um certificado de ter assistido ao curso de iniciaçom e aperfeiçoamento do galego instituído pola própria conselharia, que só dura 60 horas e só serve para comunicar rudimentos sintácticos e morfológicos da língua, exíguos e incapazes de garantir a competência linguística dos seus possuidores. Além disso, para as pessoas que rendam o exame, este nom computará para a nota global do aspirante. Esta medida, de levar-se a cabo, nom só suporá um novo golpe à normalizaçom linguística, senom que atentará contra a legalidade vigente, que ampara o cidadão no seu direito de ser atendido pola Administraçom no seu idioma, oralmente e por escrito. Além disso, supom um câmbio de rumo total no perfil dos aspirantes a funcionários. Com a isençom do conhecimento do galego na funçom pública, poderiam apresentar-se candidatos doutras regiões do estado sem nenhũa vontade de adequaçom linguística. Deste jeito os cidadãos poderiam topar-se com ũa realidade disparatada, na que teriam que dirigir-se aos funcionários em castelhano, desde que com 60 horas de aulas vai ser difícil avondo que entendam o que um galego-falante lhes queira expressar.

    Em qualquer caso, se as provas existentes nom garantem a competência dos funcionários, segundo aduz a "Xunta", cumpriria revisá-las, e nunca eliminá-las em benefício duns cursos que de há anos venhem sendo amplamente criticados por ter demonstrado a sua redonda ineficácia.


    VALENTIM PAZ ANDRADE

    ADVOGADO, EMPRESÁRIO, POETA, POLÍTICO, JORNALISTA E GALEGUISTA

    Valentim Paz Andrade nasceu em Lérez, Ponte-Vedra, o dia 23 de abril de 1899. Realizou estudos primários e secundários em Ponte-Vedra. No ano de 1917 inicia em Santiago estudos de Direito e começa a colaborar na prensa local. Dous anos depois, participava na II Assembleia Nacionalista Galega, celebrada em Santiago com a presidência de Castelão.

    Depois de obter o diploma de advogado e do obrigado parêntese do serviço no exército, Paz Andrade passa a dirigir o jornal Galicia de Vigo, no que colaborara desde os primeiros números. Esse jornal, considerado hoje um fito fundamental da prensa galega, desapareceria no ano de 1926, perdendo-se um "órgão de liberdade, da cultura e da cidadania galegas".

    Trás a proclamaçom da II República, Paz Andrade participa em diversos mítins galeguistas em Santiago e Vigo, junto de Castelão, Risco, Outeiro Pedraio, Carvalho Calero, Alonso Rios ou Suárez Picalho, e figura entre os fundadores do Partido Galeguista no ano de 1931.

    Já metido em cheio na actividade empresária, o 3 de janeiro de 1932, é vítima dum atentado na rua do Príncipe, em Vigo, em momentos em que estava a mediar nũa greve dos marinheiros contra os armadores. Recebe cinco disparos, mas sobrevive.

    Dous anos depois, como consequência do desterro de Castelão em Badajoz pola sua campanha antilerrouxista , este pede-lhe que assuma a Secretaria Política do Partido Galeguista, mas Paz Andrade nom aceita, por razões explicadas nũa carta datada em dezembro desse ano.

    Em 1936 é candidato ao Parlamento por Ponte-Vedra nas listas dos republicanos de centro. Com a quebra da ordem constitucional, o 18 de julho do '36, é desterrado a Verim, onde sofre outro atentado, ao que sobrevive. Em 1937 deslocam-no para Requeixo de Queixa, em Ourense, até a cancelaçom do desterro em Nadal desse ano. Esse mesmo ano, conhece em Trives a que seria a sua mulher, Pilar Rodríguez de Prada, com a que casará dous anos depois. É detido novamente em 1939 e estranhado em Villanueva de la Serena, Badajoz. Os anos daí para o 1945 som de parêntese. Só depois de 1945 começa a acordar timidamente a actividade cultural dos galeguistas, em restritos âmbitos e em encontros rodeados de segredo e sigilo.

    Em janeiro de 1950, ao morrer Castelão no exílio argentino, Valentim Paz Andrade publica no Suplemento de "La Noche" um artigo titulado "El hombre y el artista", ilustrado com um desenho de Bagaria, outro exiliado do que também estava proibido falar. Referem Diaz Pardo e Charo Portela que essa publicaçom supujo a morte desse Suplemento. De Madrid deram ordens precisas acerca dos limites nos que os jornais poderiam dar a notícia. No entanto que o corpo embalsamado do Guieiro era depositado no cemitério da Chacarita em solene cerimónia, os directores dos jornais recebiam da "Dirección General de Prensa" ũa categórica comunicaçom na que se expressava que "tendo falecido em Buenos Aires o político republicano e separatista galego, advertia-se que a notícia da morte deveria dar-se nas páginas interiores e a ũa coluna. Caso de inserir fotografia, nom deverá ser de nenhum acto político. Louvar-se-âm do falecido as condições de humorista e caricaturista. Poderá ser destacada a personalidade política na medida em que se qualifique a mesma de errada e que se espera a misericórdia de Deus e o perdom dos seus pecados. Nom se fará ementa do livro Sempre em Galiza nem dos álbuns de desenhos de guerra. Qualquer omissom destas instruções dará lugar ao correspondente expediente".

    "La Noche" estava dirigida por José Goñi, um carlista honesto e inteligente que sabia da importância do rianjeiro para Galiza. O redactor do jornal era Borobó, um homem que luitara na guerra civil defendendo a República. O censor, Monje Julí, nem censurou o texto nem se opujo à publicaçom... Valentim sabia o que arriscava o Suplemento, mas parecia-lhe ũa indignidade permanecer calado naqueles momentos. Quando Goñi tem que suspender a publicaçom do Suplemento, di-lhe a Fernândez del Riego, outro dos responsáveis, que essa inevitável desapariçom era alheia aos seus desejos. A Valentim esse castigo pareceu-lhe ũa morte honrosa, que algum dia se celebraria como gesto de dignidade. E assim foi.

    Nos '50, Valentim Paz Andrade começa a multiplicar as actividades de economista, participando por todo o mundo em conferências, simpósios e encontros sobre economia pesqueira, e mesmo no ordenamento jurídico e económico das pescarias.

    Em 1960 funda-se Pescanova SA, da que é nomeado vicepresidente. Ao ano seguinte, sofre um acidente de trânsito que o mantém hospitalizado vários meses. Nesta década prossegue seu labor de economista, viajando continuamente e dedicando-se mormente ao labor empresário. A par publica livros, e em 1964 é nomeado membro numerário da Real Academia Galega.

    Nos anos '70, Paz Andrade volve a integrar-se de jeito mais directo na batalha política, sendo eleito senador no '76 pola candidatura Democrática Galega. Desenvolve ũa intensa campanha a prol da autonomia. Morreu em Vigo em maio do 1987.

    O RATO DA LIVRARIA
    Fonte: Francisco P. Lorenzo
    Suplemento de "O Correo Galego"
    Número 163 - 13 Junho 1997


    GALIZA, CRÓNICA DUM DESTINO

    por Isaque Díaz Pardo, publicado em 

    O 25 de Julho de 1947, Castelão com a sua dona aguardava em Marselha o navio que o devolveria a Buenos Aires, depois da peripécia política do governo Giral, que vinha de deixar. Castelão e Virgínia passaram um dos invernos mais frios e desiludidos das suas vidas, com nostalgia mortal doutros tempos. E lembrando um discurso de Outeiro Pedraio do ano '31 em Vigo, Castelão reconstrui e amplia, com tristuras de presidiário no fundo dum poço no que a custo chega a luz, imaginando voar esse dia a Compostela para gozar do esplendor do Dia da Galiza. No seu sonho percorre o caminho da nossa história vendo passar, como no desfile dũa Santa Companha, os grandes personagens da nossa estirpe, desde Prisciliano até Vale-Inclam, este ainda nom descarnado. No desfile passa Teodósio o Grande, a monja Egéria, Paulo Orósio, Idácio... Gelmirez, o mestre Mateu, Meendinho... Pedro Madruga, o Mariscal Pardo de Cela, os três Fonsecas... Francisco Sânchez o céptico... o conde de Gondomar... os arquitectos Andrade e Casas e Nóvoa, o P. Sarmento, Feijó, Rosalia de Castro, Curros... Murguia... e assim até sessenta e quatro personagens.

    Castelão recorda que Oliveira Martins dixo que na história nom há mais que mortos e que a crítica histórica nom é um debate senom ũa sentença, mas os mortos pensa o rianjeiro revivem e mandam muitas vezes desgraçadamente e gosta de pôr a debate a nossa história, nom a nossa tradiçom, pois se bem é certo que se pode compor ũa grande história da Galiza com só recolher as crónicas dos grandes homens nossos também é certo que nenhum deles, nem todos juntos forom capazes de erguer a intransferível autonomia moral da Galiza à categoria defacto indiscutível. Peró Galiza, di, conta para a sua eternidade com algo mais que ũa história fanada, pois que tem ũa tradiçom imponderável para ganhar o futuro.

    Quando Castelão construi este formoso discurso (que no ano '51, no primeiro cabo de ano vai publicar o Centro Galego com o título Alva de Glória, ao cuidado de Luís Seoane), Castelão vai para Buenos Aires já ferido de morte. Mas ainda terá aços, bem certo de que nom voltaria a ver a sua terra, para presidir o Funeral Cívico de Bóveda, no agosto de 1948. Castelão está certo de que ũa assembleia de mártires galegos, em grupos presididos por Quintanilha (socialista), Benigno Varela (comunista), Minhores (republicano) e Vilaverde (anarquista), aceitaria que Bóveda fosse nomeado como o protomártir da causa da Galiza. Dezasseis meses depois Castelão era enterrado no Panteon do Centro Galego na Chacarita, donde nom deveu sair jamais, pois cada um deve ficar, devolvendo o corpo à terra que o prestou, ficando no chão aonde nos levam as circunstâncias polas que passam as nossas vidas: Sir John Moore está bem que fique na Corunha, onde recebe os nossos respeitos e o de todos os ingleses; o mesmo Machado em Colliure é venerado por todos os povos do mundo.

    Um grupo de galegos e argentinos, possivelmente bem intencionados, que presidiam o Centro Galego, peró mal informados, ou enganados, da transcendência que tinha que exumassem os restos de Castelão para tragê-los para a Galiza, nom se precatarom de que tal operaçom se fazia com a intençom de apoderar-se do prestígio universal do seu nome, ocultar a sua história, nom fazer o que Castelão queria, sequestrar o seu significado, para dar medalhinhas no seu nome a todo-cristo para cobrir o expediente.

    Este é o dramático destino da nossa terra, que foi capaz de burlar o amor do homem mais importante que tivo Galiza, ele e Bóveda, que forom os que mais fijerom pola nossa Autonomia.

    Acaso nom é verdade, amigos todos, que sem pelejar-nos, nem insultar-nos, teríamos que reflectir, conhecendo a história, como poderíamos corrigir-nos e luitar todos sem fissuras polos interesses básicos da Galiza (postergando os bárbaros especialistas), como fâm, em conjunto, os catalães, dos que já sabíamos que ganhasse Pujol ou Maragall, o que ganharia sempre seria Catalunha?


    A GALEUZCA DA TOPONÍMIA

    Em sintonia com o espírito da Galeuzca e dos novos pactos acordados por alguns partidos nacionalistas, as academias galega, basca e catalana assinarom o 27 de abril deste ano ũa declaraçom na que "alertam acerca da destruiçom do património toponímico" e recordam que o "quadro jurídico vigente estabelece que a forma legítima é a autóctone".

    Os representantes das três academias criticarom também a ediçom revisada do livro da "Ortografía de la Lengua Española", que "concretamente num apêndice contém cousas que cremos nom estâm bem feitas, para cuja elaboraçom gostaríamos de ser consultados". Apesar disso, manifestarom seu "propósito de contar com a Academia Espanhola, com cujos membros temos ũa relaçom fluida e isenta de animosidade."

    O membro da Comissom de Onomástica da Euskaltzaindia, José Luís Lizundia, expressou que, desde a Lei de Normalizaçom Linguística de 1982, "há ũa nova situaçom democrática e os nomes dos municípios som competência das comunidades autónomas" e "cumpre acostumar-se a isso", polo que descartou que a situaçom política tenha relaçom com a defesa dos idiomas.

    Antom Santamarina, membro da Real Academia Galega, assinalou que Galiza é a zona hispânica com maior número de topónimos, perto de 32.000 lugares, e que na actualidade se estâm a revisar as suas denominações "nalguns casos disparatadas e concretamente recolhidas no ementado apêndice."

    Por outra parte, Josep Moran i Ocerinjauregui, membro do Institut d'Estudis Catalans, criticou a "substituiçom do património genuíno tradicional por nomes híbridos, banais e comerciais". Além disso, lembrou a recomendaçom da ONU de evitar isso, pois que "a toponímia é um património importante da comunidade que se tem de preservar."

    A declaraçom pede respeito para os nomes próprios de lugares e pessoas destas línguas, "do mesmo jeito que nós respeitamos as denominações em castelhano".


    REIVINDICAMOS O IMENSO VALOR DA CERNA DE CARVALHO

    Explorando ao máximo as possibilidades legais, promovendo a modificaçom da legalidade no que seja justo, há-se submeter o idioma galego à preparaçom necessária para a sua plenitude usual. Nom podemos limitar o seu funcionamento a ocasiões subalternas subsidiárias . (Carvalho Calero, Do Galego e da Galiza)

    A Associaçom Galega da Língua convoca-nos na manhã deste sábado, 25 de Março, a ũa Jornada de Homenagem ao Professor Ricardo Carvalho Calero a celebrar na Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago. Observo o programa e vejo que se realiza um convite aberto a numerosos colectivos para exporem publicamente a memória das suas actividades. Congratulo-me porque sei que este era o espírito do nosso saudoso professor, que sempre tinha a mão tendida mesmo a quem nom desaproveitava oportunidades para mantê-lo no mais absoluto silenciamento. Eu nom tivem a honra de ser seu aluno. Conhecim o seu nome de jeito puramente casual. Ainda nom existia a matéria de Língua e Literatura (Galegas) no ensino secundário. No Instituto de Ortigueira um inesquecível professor asturiano, docente exemplar, argumentou a necessidade de que conhecêssemos a actualidade do nosso próprio idioma antes de acedermos à Universidade e incluiu no currículo de Espanhol este objectivo. Ensinou-nos a documentar-nos nas bibliotecas, a olhar reflexivamente o nosso entorno, a procurar endereços e a preparar entrevistas. O docente proporcionou-nos ũa mínima autonomia na aventura do conhecimento. Foi deste jeito como consultamos bibliografia e apareceu o nome Ricardo Carvalho Calero. Nada nos dizia nessa altura. Pouco mais conseguimos que copiar acastrapado algum fragmento do seu Problemas da Língua Galega, editado na Colecçom Noroeste da editora Sá da Costa. Obviamente intuímos o autor dever ser importantíssimo no seu tempo, porque aparecia citado em toda a documentaçom que chegou às nossas mãos e como todo o relacionado com Galiza e o galego pensamos que nom estaria no mundo dos vivos. Aqui antes houvo gente bem importante comentamos entre nós.

    Chegamos à universidade e organizarom-se as I(as) Jornadas de Poesia Galega, Portuguesa e Brasileira. Na Faculdade de Filologia recitarom Manuel Maria, Bernardino Graña, Xosé Luís Mêndez Ferrín, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade e Cláudio Murilo. Ali estava também o mestre Carvalho Calero e ali escuitamos por primeira vez o seu verbo pausado, exacto e profundo. Abraiante! Desde esse mesmo dia D. Ricardo converteu-se num verdadeiro mito vivente que cada manhã víamos passar pontualmente para o seu modesto gabinete, sempre apoiado no cajato e a boina cobrindo aquela cabeça pelada repleta de ciência.

    Lembro cinematograficamente a apresentaçom em Compostela do Sétima soidade de Pilar Pallarés, quando se publicou a obra ganhadora do Prémio Esquio. Estava tam emocionado como se a obra fosse sua, porque era um docente que se sentia totalmente projectado nos resultados do(s) seu(s) alunos. Depois muitos colegas de diferentes faculdades seguimos praticamente a totalidade dos seus discursos públicos em Compostela. O mesmo nũas jornadas dedicadas a Vicente Risco, que nuns encontros pedagógicos, nas apresentações dos livros -Letras Galegas, Scórpio...- ou nas diferentes edições do Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza. No recordo está o mestre do discurso público, um orador genial, que resultava emotivo para o auditório que enchia as salas. Era o público fiel que sempre o acompanhava e cada vez iam-se somando uns e outros. Quem pode esquecer o salom de actos da Faculdade de Económicas repleto ouvindo com entusiasmo o seu discurso lúcido e vívido com motivo da constituiçom da Mesa Pola Normalizaçom Linguística? Toda a força dũa Galiza histórica enlaçando-se em harmónica simbiose, transmitindo o testemunho a ũa juventude com toda a força vital. Rostos vermelhos e suarentos, lágrimas nos olhos e toda a concorrência em pé ovacionando o mestre.

    Ao ser humano chegou-lhe a sua hora é a lei e passarom já dez anos (1990-2000). É um período suficiente para avaliar o que permanece do espírito de Ricardo Carvalho Calero. Houvo aquele em que deixou a semente da erudiçom em matéria linguística, literária ou nas duas ; houvo aquele em que prendeu a sua sensibilidade criativa ou a especialíssima técnica oratória. Em todas e todos está vivo o compromisso integral com esta Terra, desde a mais firme convicçom, antepondo os interesses colectivos aos particulares e/ou puramente crematísticos.

    A dez anos do seu passamento a palavra de Carvalho Calero é ũa erva viçosa. Está no verso ou na coluna jornalística de Pilar Pallarés, na estratégia didáctica de Elvira Souto como necessita este povo que dũa vez se ponha em prática a Sócio-didáctica linguística! , está dentro e fora do Parlamento Galego, nos Concelhos de Ferrol, Compostela, Lugo e em tantos outros. O discurso de Carvalho Calero ecoa nos ouvidos de quem integram as Irmandades da Fala, a Associaçom Galega da Língua, a Asociación Sócio-

    -Pedagóxica Galega, a Mesa Pola Normalización Lingüística e todos aqueles outros colectivos que defendem a dignidade humana nesta terra.

    A biografia de Carvalho Calero permite-nos alviscar o caminho completo de jeito que nom nos angustiemos nũa etapa concreta por difícil que esta seja. Perante os obstáculos, muita perseverança; o desânimo nunca. Com pouco mais de vinte anos, o nosso mestre estava licenciado em duas carreiras e já tinha contribuído as mais importantes empresas colectivas da naçom galega (SEMINÁRIO DE ESTUDOS GALEGOS, ESTATUTO...). Padeceu a repressom e tivo que estar cinco anos fora da Galiza e mais de vinte no ensino privado procurando a sobrevivência. No entanto chegou-lhe o tempo e foi capaz de transmitir o facho do galeguismo histórico aos círculos intelectuais deste país.

    Hoje-mais ou menos activos; viçosos, chamuscados ou queimados; sempre silenciados e essa Galiza que sonhava o nosso mestre.

    Bernardo Penabade


    Viajando polo dicionário...

                                           (Colaboraçom de Manuel Iglésias Iglésias)

    Eis algũas locuções achadas folheando o dicionário:

    A pam comer: encarecer o gasto que já havia.

    A pam sabido: a conta de outro.

    A pam pedir: vivendo de esmola.

    Comer o pam com a côdea: valer-se por si, sem ajuda de ninguém.

    Comer o pam que o diabo amassou: passar muitos trabalhos.

    Estar a pam e cuitelo: viver e comer juntos.

    Ficar a pam e laranja: ficar quase na miséria.

    Pam por pam e vinho por vinho: com clareza.

    Pôr alguém a pam pedir: maltratá-lo de palavra.

    Pedir papas: capitular ante alguém, num jogo, exercício, trabalho, etc.

    Sem papas na língua: sem rodeios.

    Porfiar os sete porfiares: Insistir até nom poder mais.

    Prometer montes e moreas: fazer promessas que nom se vâm cumprir.

    Mandar cavar patacas: despedir alguém com desprezo.

    Nom poder dar no burro e dar na albarda: castigar ao inocente por nom poder fazê-lo com o culpável.

    Dar aos calcanhares, ou, pôr-se a cavar: fugir.

    Nom chegar aos calcanhares de alguém: nom se lhe poder comparar.

    Como se cantasse um carro: Nom fazer caso do que se está a ouvir.

    Endireitar-se o carro: colher direcçom favorável um assunto.

    Nom ir (alguém) no meu carro à missa: nom ser pessoa do meu gosto.

    Nom andar o carro: haver algum obstáculo na marcha dum negócio.

    Pôr o carro antes que os bois: começar um assunto por onde devia acabar-se.

    Untar o carro: conseguir algo, com dinheiro, de alguém; subornar.

    Ir nas costas de alguém: seguir a pista.

    Ter as costas quentes: ter ou contar com a protecçom de alguém.

    Ter as costas longas: aguentar com as responsabilidades.

    Assentar-lhe costuras a alguém: bater-lhe, principalmente nas costas; dar-lhe ũa boa repreensom.

    Apartar a palha do grão: distinguir o bom do mau.

    Dar palha a alguém: enganar com boas palavras.

    Meter palha na albarda: engordar alguém com boas palavras.

    Tirar palhas dũa albarda: ser cousa fácil.

    Estar como um palheiro: estar desordenado.

    Nom ficar cam trás palheiro: nom deixar nada esquecido.


    Página dos assistentes às aulas de galego

    CATADOIRO

    Encravada no Cabo Cabicastro, na península do Salnês, encontra-se esta aldeinha, que nom se poderia chamar doutra maneira que nom fosse Catadoiro, pois que do seu ponto mais alto, os Corutos, vê-se toda a ria de Ponte-Vedra e o Oceano com a sua vigia, a Ilha de Ons. No seu núcleo nom tinha mais de trinta casas; agora o crescimento urbano desenvolve-se na estrada de beira-mar.

    Hoje, longe dela, vou percorrê-la com o pensamento e as lembranças:

    De côvados na janela da sala do primeiro andar, olhava de esquerda para direita e de direita para esquerda e via quase toda a aldeia, sem que obstáculo algum me tolhesse a paisagem.

    Ante mim, as hortas das pereiras e, onde findam elas, um regato. Uns metros à direita, a ponte por onde passa o caminho que vai para igreja da Adina, seguindo para riba as leiras de milho e de patacas; acolá o rio onde lavam a roupa, perto do moinho ainda em pé, rodeado de silvas. A mim esse lugar parecia-me muito alegre e mágico por qualquer sítio que o olhasse: roupas colgadas nos valos de silveiras para se secar. No campinho tendida a roupa branca para o clareio era um tapete contrastante com o verde de arredor. Peró do que mais gostava era de escuitar as faladorias das mulheres a par que batiam a roupa nos lavadoiros de pedra. Riam-se de todo e de todos; os homens tinham medo de passar polo carreiro perto do rio quando estava cheio de mulheres, pois sabiam que iam propinar-lhes ũa "leva".

    As mulheres catavam o mais rechamante no homem que passava polo carreirinho a par do regato, quer o chapéu de palha, o pantalom com remendos ou rachos, o cesto na mão ou qualquer outra cousa. Quando estavam elas no certo da cousa escolhida, estalavam a coro: "E leva...e leva... o racho no pantalom e leva... e leva".

    Prossigo ali na janela, miro o caminho que passa debaixo da minha casa e acaba a uns passos, no portal da vizinha. Levanto a mirada e sobrevoo por riba das hortas, do rio, dos pinheirais e aterro no campanário da igreja com a sua cúpula assomando entre as árvores. Aqui me detenho a lembrar os domingos de Ramos. Naquele dia a igreja luzia mais bonita que nunca, a gente esmerava-se em preparar o ramo de oliveira e palma a par dum candeeiro com vela, lustrado com cinza do lar, adornados ambos os dous com flores e fitas de cores. Ali íamos os rapazes sob os ramos que tínhamos ajudado a armar.

    Novamente torno a mirada ao peitoril. De olhos fechados escuito berrar a praia de Arra. O vento da travessia ou Onda chegava ao casario com os sons do mar e o fungar dos pinheiros.

    Um pouco mais longe está a nossa praia de Paxarinha, sita nũa fenda do monte dos Corutos, em cuja parte mais alta fica ũa Pirâmia, talvez ũa fortaleza celta. Daí o seu nome, Catadoiro.

    Ainda que Paxarinha fica às minhas costas, bem vejo as suas areias brancas, as águas transparentes que me chamam... que me chamam...

    "Sarinha... que fás aí mirando todo o tempo pola janela?" A voz da minha nai tirou-me do enlevo.

    SARUCA ESPIDA, Junho 30 de 2000

    DO MAR

    Mar, eterno paradoxo.

    Únes ou separas

    como algũas palavras,

    como alguns amores.

     

    Rumor do mar,

    Cor do mar,

    aroma do mar.

    Ouvem, vêm, recendem

    através de mim

    gentes que nom conhecim

    e que em mim moram

     

    Diante do mar ponho-me e

    respiro a sua imensidade.

    Percebo naufrágios e resgates.

     

    Num oco pequeno

    escuma do mar, restos das ondas.

    Será isto a vida?

    Caminho a par do mar.

    Minha alma alcança-me e canta

    Gaivotas na praia,

    andorinhas no ar,

    beleza, liberdade,

    absolutos possíveis.

     

    Caracola perfeita, rosa e nácar,

    fás-me compreender

    que nunca decifrarei

    o teu segredo.

     

    Mais ũa vez,

    rochedo e mar, maré interior,

    ordenam e desordenam,

    minha alma.

     

    Como a escuma

    desaparece nas areias,

    desfago-me perante a tua imensidade.  

    Estrela Vara


     

    A PÁTRIA DE TEODÓSIO O GRANDE

    por Francisco José Velozo

    (publicado em Homenagem a Florentino A. L. Cuevilhas, editora Galáxia, Vigo, 1957)

    Idácio, bispo de Chaves (séc. V), na sua Crónica, referindo-se ao ano de 379 da era cristã, afirma:

    Theodosius natione hispanus, de provinciae Gallaeciae, civitate Cauca, a Gratiano Augustus apellatur.

    Quer isto dizer que Teodósio, hispano por nascimento, da cividade (naçom ou tribo) de Cauca, foi elevado por Graciano à dignidade de Augusto. Paralelamente, Zózimo, historiador grego dos princípios do século V, declara Teodósio natural de Kayka, polis (civitas) da Galécia (Kallegía) na Ibéria (lib. IV).

    Só Marcelino, Comes llyrici (a Ilíria ocupava aproximadamente o lugar da Jugoslávia [de Tito], que escreveu no séc. VI (534) ũa crónica desde o Imperador Teodósio até 566, o diz oriundo de Itálica, cidade que ficava a noroeste de Sevilha e nom longe dela, do outro lado do Guadalquivir (Chronicon, in princ.): Theodosius hispanus Italicae divi Trajani civitatis, etc.

    Mas este escritor parece ter confundido a pátria de Trajano com a de Teodósio no passo transcrito.

    Mais claro, inda que envolvendo a sua liçom em metáforas, como poeta, Claudiano, escritor que nasceu em Alexandria antes de 375 e de que se nom conhece qualquer escrito posterior a 408, em duas obras dedicadas a Honório, filho de Teodósio, orienta-nos perfeitamente. No seu panegírico De Tertio Consulatu Honorii, escreve, invocando Teodósio, já falecido (vv. 175-177):

    O decus aetherium, terrarum gloria quondam,

    Te tuus Oceanus natali gurgite lassum

    Excipit, et notis Hispania proluit undis.

    (Ó ornamento do céu, outrora glória das terras,

    fatigado, nesse mar onde nasceste, o Oceano te

    recebe, e Hispania te banha com as suas ondas, que bem conhecias!)

    No panegírico De Quarto Consulatu Honorii, dirigindo-se a Honório, filho do Imperador Teodósio, exclama (vv. 127-130):

    Hispania patrem

    Auriferis eduxit aquis; te gaudet alumno

    Bosporus Hesperio de limite surgit origo;

    Sed nutrix Aurora tibi...

    (Hispânia ao teu pai

    deu origem nas suas águas auríferas; contigo, como oriundo, alegra-se

    o Bósforo: dos confins hespérios veo a estirpe;

    mas a Aurora foi a tua nutriz.)

     

    Tais referências nom conveem à cidade de Itálica, situada no interior da Bética, longe das margens do Oceano, e que também nom poderia dizer-se propriamente nos confins da Península Ibérica:

    O poeta considera o Oceano tam estreitamente ligado ao nascimento de Teodósio, que fai o Imperador quase surgir das ondas; e nessas mesmas ondas natais, tornado astro após a morte gloriosa, fai-o mergulhar. Na Galécia, apontada como pátria de Teodósio expressamente por Idácio e Zózimo, corriam as águas auríferas mencionadas por Claudiano. Nom eram as únicas, pois o poeta depois fala das do Tejo. Mas que existiam na Galécia dim-no os autores da Antiguidade. E a Galécia, com todo o Ocidente peninsular, era entom o limite do orbe conhecido.

    Claudiano, aliás, parece excluir o Guadalquivir (Baetis) e o Tejo (Tagus), ao apontar a zona do nascimento de Teodósio, nesse outro poema que dedicou às núpcias de Honório, In Nuptias Fescenninas (vv. 31-36):

    Decorent vireta Baetin,

    Tagus intumescat auro

    Generisque procreator

    Sub vitreis Oceanus

    Luxurietur antris.

    (Decorem verdores o Bétis,

    encha-se de ouro o Tejo,

    e que esse progenitor da estirpe,

    o Oceano, sob as cristalinas

    profundidades, rejubile!)

    Eis-nos pois com todo o direito voltados para a Galécia e para as suas praias.

    Onde ficava Cauca entom? Contrariamente ao que hoje acontece, muito judiciosamente notava Flórez, no século XVIII, que o nome da cidade de Cauca nom se deve reduzir a Coca, povoado do bispado de Segóvia... porque esta nunca pertenceu à Galiza (España Sagrada, t. IV, pág. 386).

    Filipe de Gândara, na sua obra Hechos heroicos de los hijos de Galicia (Madride, 1662, pág. 31) informa que, na opiniom de alguns, Cauca era um lugar assim chamado entre a cidade de Braga e a vila de Valença do Minho (Coca), e cita o Padre Bivar no seu comentário a Dextro, relativo ao ano 32 da era cristã (n. 4), o que chega para afastar, polo suspeito da origem, o valor da asserçom. Deve ser da mesma fonte a notícia, que trai o Agiológio Lusitano (citado por Jerónimo Contador de Argote, Memórias para a História do Arcebispado de Braga, Lisboa, tít. I, tomo II, pág. 377), de Cauca ser em Vila Pouca, entre Chaves e Vila Real; se nom é dessa fonte, é mera conjectura cujo fundamento desconheço, e parece-me basear-se apenas em qualquer semelhança de um topónimo actual com o antigo.

    O sábio Contador de Argote ocupou-se largamente da questom (op. cit., págs. 377 e segs.) Argote é o autor da opiniom, a nosso ver infundada, de a Galécia se estender polo norte, no tempo dos romanos, até Segóvia. Invoca dous trechos de Orósio, que mais adiante hei de referir, e as passagens de Idácio e de Zózimo já transcritas. Escreve ele:

    "Que a cidade de Cauca nom estivesse situada nos termos da Galiza primitiva e antes da divisom ordenada por Adriano, se prova por Plínio, Ptolomeu e Antonino. Plínio, no livro III, capítulo III, coloca os Caucenses, que som os moradores de Cauca, na Chancelaria de Clunia, entre os povos vaceus: In Cluniense... Caucenses... Ptolomeu, na segunda tábua de Europa, no capítulo IV, situa Cauca entre os Povos Vaceus, os quais nom só ficavam fora dos limites da Galiza do tempo de Augusto, mas também das Astúrias. O Itinerário de Antonino, no primeiro caminho que descreve, de Mérida a Saragoça, assenta Cauca a sete léguas de Segóvia".

    Argote nom tomou em consideraçom, talvez por nom ter à mão o magnífico Thesaurus Geographicus de Abraam Ortélio (Antuérpia, 1597), que Cauca ou, em grego, Kayka, era também ũa "cidade (urbs) da Hispânia, próxima do rio Tejo, segundo Apiano (in Iberic.)", como nota aquele geógrafo.

    Assim, por igual ordem de considerações, poderia estender-se a Galécia até o rio Tejo...

    Zózimo e Idácia precisarom que a terra natal de Teodósio ficava na Galécia, cujos limites nom abrangiam os Vaceus, nem Segóvia, como nom passavam para sul do Douro.

    Atentemos logo nos textos de Orósio (Adversus Paganos Historiarum libri septem) aduzidos por Argote, para estender as fronteiras galecas tam para leste. O primeiro é aquele em que o escritor bracarense (sécs. IV-V) diz (lib. V, c. VII):

    Numantia autem Citerioris Hispaniae haud procul a Vacceis et Cantabris in capite Gallaecia sita, ultima Celtiberorum fuit.

    O que significa: "Numância, pois, situada no princípio da Galécia (orientaçom leste-oeste, desde Roma), nom longe dos Vaceus e dos Cântabros, da Hispânia Citerior, foi a última [cidade] dos Celtiberos".

    Mas, como já observamos noutro lugar (As origens nacionais de Portugal e Espanha e o domínio islâmico na Península, Guimaraães, 1951, pág. 32, nota 1), citando a Crónica Rotense, onde se lê Numantia qui nunc vocatur Zamora ("Numância, que ora se chama Samora"), foi a esta cidade que aludiu Paulo Orósio. Ela estava na parte leste da Galécia, na cabeça, e perto de Vaceus e Cântabros, que a província nom abrangia, mas com quem lindava. Nada tem que ver esta Numância com a das nascentes do Douro.

    O testemunho do célebre historiador vale para a definiçom das fronteiras provinciais no seu tempo. Mas nom tem interesse algum quanto à alusom aos Celtiberos, cujas populações originárias já a sua época nom conseguia precisar.

    Nom podemos esquecer o sentimento patriótico de Orósio, que pretendia chamar à pátria, à Galécia, as glórias numantinas, conforme noutro estudo citamos (A Lusitânia suévico-bizantina, I, Braga, 1950, págs. 17 e segs.). O nosso Frei Bernardo de Brito também propujo Numão, entre o Douro e o Tejo.

    O segundo texto de Orósio apontado por Argote, para o alargamento das fronteiras galecas para leste, é aquele em que diz (lib. VI, c. XXI), com igual preocupaçom nacional, o fundador da Filosofia da História, discípulo e colaborador de Santo Agostinho [quer dizer, Orósio]:

     

    Cantabri et Astures Gallaeciae provinciae portio sunt.

    Os Ástures, na verdade, estavam dentro da Galécia romana, ao menos os Ástures ocidentais [e centrais]. Quanto aos Cântabros, presumo que Orósio aludia às populações do litoral cantábrico, entre Noega (Avilés) e Ribadesella, que os escritores antigos ora incluíam nos Ástures, ora nos Cântabros (cf. Garcia Bellido, La Península Ibérica en los comienzos de su historia, Madride, 1953, pág. 279 e notas). Mas, inda que a Galécia abrangesse todos os Cântabros, seguindo a costa norte de Península, Numância estaria fora... e Cauca também. Donde, nada se pode extrair concretamente do passo de Orósio, que traduzo:

    " Cântabros e Ástures som ũa porçom da província da Galécia."

    Estamos assim, ainda, no ponto de partida.

    Busquemos na Galécia, entre as suas cividades ou tribos, algo que nos elucide.

    O inexaurível Thesaurus de Ortélio encaminhou-nos para o que supomos a soluçom do enigma, ao consignar:

     

    "CEUCI, Povos do convento lucense, na Hispânia, segundo Plínio III, c. 28, em três exemplares que possuo, e nas observações de Pintiano. O exemplar basiliense lê Celtici".

     

    Na Biblioteca Pública de Braga pudemos consultar ũa ediçom de Viena, de 1514, que diz
    (f.º 32 v)

    :Luc nsis conuentus populorum est XVI, pter Ceucos & Lebunos ignominiosae ac barbarae appellati s, etc.

    Outra ediçom, de Paris, 1532, trai a mesma liçom Ceucos.

    Trata-se dos Ceuci (ler à latina Keuki), cividade ou tribo que deveria ter o nome de Ceuca (Keuka) ou Cauca, tomada no sentido de localidade ou regiom, como se chamava Bracara a cividade dos Bracari, e Limica a dos Limici, etc. Se a alguém causar estranheza o variar a vocalizaçom, poderá ver que se trata de fenómeno vulgar nos textos latinos e gregos relativos à toponímia indígena, se consultar qualquer dicionário geográfico latino (v. sobre o valor das consoantes e das vogais os exemplos estudados do nosso trabalho Oestrymnis (Atlântida-Campo Elíseo), Braga, 1956, págs. 141 e passim).

    Outras edições, como diz Ortélio, trâm Celtici por Ceuci, designadamente as que pudem ver na Biblioteca bracarense, de Basileia de 1545 e de 1554; de Liom de 1561; de Francoforte do Meno, de 1582, etc.

    Parece-nos tratar-se de ũa correcçom inspirada na referência de Plínio, no livro IV, capítulo segundo, aos Célticos.

    Seja como for, a nosso ver, a liçom exacta é Ceuci. A estes, como aos Lebunos, omitiu-os no livro IV, mencionando os restantes povos ou tribos da Galécia apenas. No passo transcrito, do livro III, diz:

    "O convento lucense contém, além dos Ceucos e Lebunos, 16 povos de nomes obscuros e bárbaros".

    [D]os restantes dezasseis devem ser, para Plínio, como dixemos, os que indica no capítulo segundo do livro IV: Albiones, Cibarci, Egivarri (Namarini), [I]adovi, Arroni, Arrotrebae, Neri (Celtici), Supertamarici, Capori, Praestamarci (Celtici), Cileni, e provavelmente os Paesici, e os habitantes do "oppidum" de Noega, da ilha Corticata, e da ilha Aunios.

    Conservando a liçom Ceuci, visto que os Celtici som outros, podemos assim fixar a naturalidade de Teodósio nũa regiom costeira ocidental do convento lucense, no território dos Ceuci, na cidade de Cauca. A designaçom civitas ou polis (tribo, cividade), dada a Cauca permite-nos identificá-la como povo dos Ceuci.

    FRANCISCO JOSÉ VELOZO

     

    A MANIPULAÇOM DA HISTÓRIA

    Estamos a escuitar nestes momentos as escandalizadas declarações da Academia Nacional da História de Madrid a respeito das manipulações que da história espanhola estariam a cometer no ensino as comunidades autónomos com língua própria. Certamente a manipulaçom da história é um crime contra a verdade e a ciência. E por isso quijéramos acrescentar aqui um exemplo de manipulaçom historiográfica, inda que neste caso nom cometida polas comunidades autónomas, senom polos historiadores que custodiam os sagrados interesses do Império. Os limites da Gallaecia romana (a nosso ver coincidentes com os da Kallaikia pré-romana) vinham estabelecidos pacificamente de há muito tempo, e ainda permanecem enquanto nom emerge conflito. Mas quando, como no caso de Teodósio, a glória do passado parece inclinar-se perigosamente para cenários indignos de confiança, os mapas sofrem curiosas projecções ectoplásticas e o problema fica solucionado. Dous gráficos representam às claras estas possibilidades:
    o segundo é o mapa da Gallaecia de uso comum; o primeiro o do Contador de Argote, sabiamente expandido para compreender Coca, Segóvia e Ávila.

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          Notícias várias

HOMENAGEM A CASTELÃO

Com motivo do quinquagésimo aniversário da morte de Castelão, celebrou-se o passado 7 de janeiro, na praça do mesmo nome da cidade de Buenos Aires, um acto cívico em homenagem ao grande e inesquecível patriota galego. Mais de trezentas pessoas assistirom ao acto, que começou com o Hino Galego interpretado polos conjuntos de gaitas de várias instituições presentes. Depois colocarom-se ao pé do monumento oferendas florais e fijerom uso da palavra membros da colectividade e um funcionário do Governo da Cidade Autónoma de Buenos Aires, que se referirom à personalidade de Castelão e à importância do legado que deixou a Galiza, e à colectividade galega durante o tempo do seu exílio em Buenos Aires.

Bem cabe salientar mais cada vez a altura do grande patriota, mormente quando tanto adversário agachado e vira-jaquetas outrora autoproclamados galeguistas procuram apagar e velar a transcendência do seu labor, impedindo que o povo conheça a sua imensa obra política e artística a favor da autonomia galega no quadro dum estado federal.

O DIA DAS LETRAS GALEGAS DO 2001

A Real Academia Galega (RAG) decidiu o 24 de junho, em sessom plenária dedicar-lhe o Dia das Letras Galegas do ano 2001 ao poeta, lexicógrafo e académico fundador Eládio Rodríguez Gonçález, polo seu contributo ao conhecimento etnográfico da língua galega. Entre as razões do acordo salientarom o labor lexicográfico e etnográfico levado a cabo polo poeta ourensano, manifesto no monumental "Dicionário Enciclopédico Galego-Castelhano", em três volumes. Eládio Rodríguez Gonçález nasceu em Sam Clôdio, Ourense, o 27 de julho de 1864, e morreu na Corunha o 14 de junho de 1949.

DIAZ PARDO, FILHO ADOPTIVO DO FERROL

O sábado 1º de junho culminarom os actos de homenagem a Isaque Diaz Pardo no Ferrol. A concessom do título de filho adoptivo dessa cidade foi acordada polo governo municipal. Antes da cerimónia, o dia 6 de junho, inaugurara-se a mostra de cartazes patrocinada pola conselharia de cultura, na que se virom trabalhos do empresário e desenhador de 1936 a hoje.

PASSAMENTO DE TERESA CASTELÃO

Teresa Rodríguez Castelão, terceira filha de Mariano Rodríguez e de Joaquina Castelão, morreu o 24 de março pola manhã na sua casa de Rianjo, precisamente no ano que se comemora o 50º aniversário da morte no exílio do seu irmão Afonso Daniel. Como a sua irmã Josefina, nascera em Bernasconi, La Pampa, na República Argentina, onde seu pai se estabelecera para tentar fortuna e era dono dum armazém rural ou pulperia, evocada por Afonso Daniel Castelão nos contos do livro Retrincos.


PUBLICAÇÕES À VENDA

em Chacabuco 955, nos dias e horas de aulas)

Revistas AGÁLIA, números do 5 ao 19, c/a $10,00

Revistas AGÁLIA, números do 20 ao 24, c/ũa $11,00

Revistas AGÁLIA, números 26, 27, 28, 30, 33 e 35, c/ũa $12,00

Revistas AGÁLIA, números 25 e 29, c/ũa $15,00

Quadros de Gramática Galega (Higino Martínez Estêvez,

Ediçom de Amigos do Idioma Galego) $10,00

Guia Prático de Verbos Galegos Conjugados (AGAL) $12,00

Prontuário Ortográfico Galego (AGAL) $23,00

História da Galiza (em banda desenhada) $ 7,00

Quatro estudos de história de Galiza $10,00

O mundo narrativo de Álvaro Cunqueiro (Moram Fraga) $15,00

Lua de Além-Mar e Rio de Sono e Tempo (Guerra da Cal) $23,00


LOCAIS DE VENDA DOS

"QUADROS DE GRAMÁTICA GALEGA"

Livraria do Centro Galego, Av. Belgrano e Pasco - Buenos Aires

Livraria Rodríguez, Sarmiento 835 - Buenos Aires

Livraria "EL ATENEO", Florida 349 - Buenos Aires

Livraria "Del Sur ", Carlos Calvo 4242 - Buenos Aires

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