• Antecedentes
  • Inícios da etapa moderna
  • Associaçom de Amigos do Idioma Galego
  • Alguns de nós

    Antecedentes: Os primeros cursos de galego ditados em Buenos Aires de que há memória, ditou-nos Rafael Dieste na década dos 50, no seio da AGUEA (Associaçom Galega de Universitários, Escritores e Artistas, fundada o 22 junho 1956, para promover a cultura e língua da Galiza). Nessa altura o fervor galego em Buenos Aires era intenso: publicava-se prensa com alta proporçom de textos em galego-português ("A Nosa Terra" nos seus anos platinos saía de todo em galego). Em julho do '56 celebra-se em Buenos Aires o I Congresso Mundial da Emigraçom Galega. Para avaliá-lo tem-se que salientar o marasmo de partida: no mundo é preciso aguardar o ano 1889 para ouvir a primeira palestra pública em galego da época moderna, pronunciada também em Buenos Aires, na homenagem a Rosalia de Castro, por um presbítero de 22 anos chamado Francisco Suárez Salgado (dados registados por R. Carvalho Calero).
    Neste ambiente é que Dieste dita os cursos em 1956, 1957 e 1958, segundo testemunho de Ricardo Palmás (que ensinaria tempo depois). "Em 1959, Dieste e Clemente Balmori derom algum cursinho, no Centro Galego de Buenos Aires, de tipo filológico". Clemente Balmori, asturiano exilado, era professor na Universidade de La Plata, onde dirigiu o Departamento de Filologia. Certa tradiçom oral insiste no cariz erudito demais dos cursos; o certo é que era necessário pola condiçom fundacional. O ciclo de Dieste encerrou-se, mas nom tardou a emergir quem continuaria a carreira.
    Na segunda metade de 1960, a Associaçom Argentina de Filhos de Galegos (também conhecida sob o nome do seu boletim, "Além-Mar") organizou novo curso, ora a cargo de Eduardo Blanco Amor. Ditava-se na biblioteca do Centro Lucense, hoje Centro Galícia, na sede da rua Belgrano. Nesse ano e no seguinte, o material de leitura era da autoria de Álvaro Cunqueiro e Daniel Cortezon: "Merlim e Família", "Crónicas do Sochantre" e "As Covas do Rei Cintolo". Em 1961 ditavam-se dous cursos, um para novos e outro para iniciados. A partida de Blanco-Amor para a Galiza determina que no '62 os cursos sejam impartidos por Ricardo Palmás, designado polo próprio Blanco-Amor. "Se bem que eu falava e escrevia galego, a minha formaçom pedagógica era nula e decidim estudar português no Professorado de Línguas Vivas de Buenos Aires. Era a opçom lógica..." Palmás, em carta de Brasília datada 11-7-90, agrega que "se nom me falha a memória, ditei essas aulas até 1965 ou 1966". Em 1968, de volta da viagem, Palmás recomeça o ditado, mas nom passa desse ano, ao morrer de morte natural a Associaçom Além-Mar. Palmás lembra também ter ditado cursos na Federaçom Argentina de Sociedades Galegas, mas nom pode precisar os anos. Os dous anos de ensino de Blanco-Amor e a sequela de Palmás deixarom forte impronta. Muitos dos que anos depois trabalhariam em Buenos Aires em cursos afins assistirom a essas aulas. O lapso de 1968 a 1977 aparece vago. Pode que nele se desenvolvessem os cursos da Federaçom, mas nom se pode assegurar.


    Inícios da etapa moderna: Em 1976, o recém-fundado Instituto Argentino de Cultura Galega (na verdade departamento do Centro Galego de Buenos Aires), por iniciativa de Rodolfo Prada (que fora secretário de Castelão), publica na revista Galicia ũa convocatória a concurso de professor de língua galega. Apresenta-se Higino Martínez, licenciado da carreira de Letras (Filologia). Ao ano seguinte, começam a ditar-se os seus cursos, sábados pola tarde, com concorrência maciça. A questom ortográfica vinha fazendo cismar Martínez de antes de receber as lições do Blanco-Amor. Os cursos começarom surpresivamente sob o signo da "restauraçom histórica" (entom o nome do reintegracionismo). As autoridades nom foram avisadas; daquela a questom ainda nom o era. O conjunto dos funcionários era galeguista. Anúncios nos jornais, cheio pleno, gente em pé, paixom que descobre seu objecto. Proporciona-se o material em fotocópias. O texto em análise era "A Gente da Barreira" de Carvalho Calero. Nengũa resistência superficial apareceu, mas subterrânea deveu de haver: versões sobre o carácter elevado demais e convites a reduci-lo. Nom era possível; cumpria combater a par por diversos objectivos, mas o principal era provar a condiçom científica dos critérios introduzidos, legitimar as variantes preferíveis, procurar a todo o custo o consenso de todos os concorrentes, custasse o que custasse.
    Em 1979 o entusiasmo nom decaía. O professor aprendia ao tempo que ensinava. Nesse ano o Instituto desdobrou o curso, pondo Antom Santamarinha Delgado ("Santamarinha o Bom"), que em 1978 começara um curso na Federaçom, a cargo do nível primeiro. Se alguém tencionara inserir ũa cunha contra a temerária reforma, saiu defraudado, porque os dous professores acordarom imediatamente as directrizes ortográficas e morfológicas. Desde o princípio houvo tendência a dividir o tempo em módulos: exercitações, gramática, análise filológica de textos. Nom há três sem um quarto oculto; a pouco começou a emergir um módulo céltico. Cada ano se dedicava a um autor. Passarom Carvalho Calero, Fole, Rosalia (vários anos), Castelão. As autoridades do Instituto cambiavam e os cursos permaneciam. Tentou-se "enquadrá-los" sem sucesso. O impacto foi notável. Nesses anos, os da ditadura, coincidiu ũa campanha particularmente intensa de "chistes de galegos", instrumentada para neutralizar a influência incómoda do processo de democratizaçom no estado espanhol. Essa circunstância publicitava paradoxalmente os cursos, a par que a realidade dura conduzia muitos portenhos procurar a via de escape no estudo da cultura dos antepassados. Santamarinha o Bom continuou três ou quatro anos até a sua volta para a Corunha. Martínez ficou só com todos os níveis no ano de 1982 e pediu ajuda aos alunos com experiência docente. Ofereceu-se a Sra. Antónia Luna de Kuperman para o nível primeiro, focando especialmente os exercícios e a conversa. Desde entom permaneceu nessas funções, nas boas e nas más.
    A resistência que pudo existir nom se manifestava, mas quando o Instituto da Língua Galega em colusom com alguns membros da Real Academia Galega perpetrarom seu golpe castrapista contra a língua e cultura dos galegos, começou a insinuarse-lhe ao Higino a conveniência de adequar-se à normativa "oficial", pois "já era dum Governo Galego". A negativa fundada na falta de fundamentos científicos e atitude democrática, foi primeiro tolerada, a pairar as dúvidas sobre o actuado por aquelas instituições.
    No ano '84, no quadro destes cursos, celebrou-se o "I Simpósio Internacional da Língua Galego-portuguesa" com notável sucesso e concurso de personalidades do exterior. O entusiasmo foi tal que se decidiu renovar o evento no ano seguinte. Para o fim do '85, no cabo do ano lectivo austral, celebrou-se novamente um encontro internacional: o II Simpósio Internacional da Língua Galego-portuguesa em memória de Rosalia de Castro" [no centenário do seu passamento], com forte aporte económico dos Amigos do Idioma Galego (daquela grupo de alunos constituído em cooperadora) e a premente iniciativa do patriarca José Bieito Abraira "o tavão", que nom deixava descansar ninguém e constantemente ideava novos projectos. Assistirom autoridades do Centro Galego e do Instituto Argentino de Cultura Galega. A presidência foi ocupada por Carvalho Calero e Henríquez Salido. Nada deixava adivinhar a tormenta próxima. A incomodidade já se buscara antes através da chamada de professores de castrapo enviados pola Conselharia de Educaçom da Junta da Galiza. Os cursos reintegracionistas nom acusavam nengum dano no tempo de ditado paralelo. Às avessas, procurou-se o diálogo científico, que se lograra durante dous anos. Mas no começo das aulas do '86, as autoridades do Instituto Argentino de Cultura Galega, já nom eram as de 1977.
    O sábado em que as portas aparecerom fechadas ficou gravado na memória de muitos (e assim deveria permanecer na mente colectiva da organizaçom para sempre estar prestes a agir ante qualquer outro intento de destruçom dos cursos). Imediatamente os alunos organizados como Amigos do Idioma Galego impulsarom a continuaçom das aulas por outros meios. Formou-se ũa rede de informaçom e, à semana seguinte, os cursos prosseguirom na casa de Rosa Puente, filha do Sr. Manuel Puente, amigo e sustento material de Castelão em Buenos Aires. Essa casa e essa sala foram o âmbito onde funcionara o Conselho da Galiza, o primeiro governo galego (no exílio) deste século. A história que segue é recente. Por nom estragar um domicílio particular, procurou-se depois o âmbito do Centro Betanços. Ali, com doações de alunos, se comprarom elementos imprescindíveis para desenvolver as aulas, como por caso calefactores, que as aulas se davam num frio espaço aberto. No ano de 1987 passou-se para a aula magna dum sindicato, com melhores comodidades. Em 1988, à solicitude das autoridades da Federaçom de Sociedades Galegas, as aulas continuarom no casarom da rua Chacabuco. Em 1989 cambiarom as autoridades do Instituto Argentino de Cultura Galega, volvendo a conduzi-lo as que o dirigiram no '77. Aliás, a Junta deixara de enviar os seus professores, talvez a causa de informes desfavoráveis dos enviados, com o ânimo trabalhado polo mirrado eco atingido. Nessas circunstâncias, o Instituto volveu a convocar os professores de galego reintegrado. Como nom era honrado abandonar a Federaçom, que hospitaleiramente nos acovilhara nas horas de prova, continuarom a ditarse em ambas as instituições, os sábados no Instituto e as terças na Federaçom, nos anos '90. O Instituto foi âmbito dos cursos até 1996. Outra renovaçom de autoridades repetiu a história, agora sem traumatismo. No entanto nasceram cursos de cultura céltica, que nom forom afectados, o que demonstra a potência revolucionária que a língua galega reintegrada apresenta para certos sectores da sociedade galega, que prefeririam assimilar-se docemente. Hoje, 1999, todos os cursos de galego se ditam na sede da Federaçom de Associações Galegas.


    Associaçom de Amigos do Idioma Galego: Temos referido a existência informal desta instituiçom, nos inícios simples grupo de alunos cooperantes, depois organizaçom fléxil e activa guiada polo Bieito Abraira, afinal instituiçom de direito. Amigos do Idioma Galego celebrou a assembleia constitutiva o dia 25 de março de 1987, na casa de Rosa Puente, e atingiu definitivamente a personalidade jurídica o dia 5 de maio do '88. O artigo 2º dos estatutos reza: "A Associaçom tem por objecto: a) Impulsar o uso, estudo e promoçom da única língua própria do povo galego, cuja plena recuperaçom é requisito essencial para a redençom da Galiza; b) Promover a normativizaçom gramatical do idioma galego definido como a variedade galega do galego-português ou romance hispânico ocidental, reintegrando-o dentro do seu próprio domínio linguístico, respeitando as suas autênticas peculiaridades e restaurando-lhe quanto lhe é próprio; c) Contribuir à normalizaçom do idioma galego nos usos socio-linguísticos; d) Organizar, realizar e promover cursos, conferências, colóquios, seminários, publicações e qualquer outra actividade sobre a língua galega e em geral sobre a cultura da Galiza nas suas mais variadas manifestações; e) Fomentar o intercâmbio cultural entre a Argentina e a Galiza, estimulando o melhor conhecimento mútuo de ambos os povos; f) Apoiar o estudo e a divulgaçom das contribuições feitas pola Galiza à civilizaçom iberoamericana; g) favorecer o conhecimento das literaturas e culturas que conformam o conjunto do domínio linguístico internacional a que pertence a língua galega, quer dizer, aquele formado por Galiza, Portugal, Brasil e os povos africanos e asiáticos de expressom galego-portuguesa; h) Colaborar com outras entidades na realizaçom de actividades coincidentes com os propósitos enunciados..."
    Como se vê, a defesa da língua é a ideia força directriz, o que fai de Amigos do Idioma Galego a instituiçom única na Argentina. Da língua que chamamos galega por nascida na velha Gallaecia, e que outros conhecem como portuguesa por ter sido espalhada através do mundo desde o antigo condado de Portucale, no sul da Galiza, que depois expandido foi o Reino de Portugal. Essa língua galega, ou galego-português da Galiza actual, restabelecida a sério,com a sua representaçom gráfica própria, reintegrada, libertada da ortografia do castelhano, estigma colonial que alguns pretendem manter essa língua é o objecto do nosso amor e a nossa razom de ser societária.
    Hoje Amigos do Idioma Galego suporta todas as despesas dos cursos de galego reintegrado que se ditam em Buenos Aires, imprime textos em galego reintegrado, qual os "Quadros de Gramática Galega" do prof. Higino Martínez, "Reflexos da Doma" e "50 alalás", cantigas galegas do nosso entranhável patriarca Ricardo Flores,"Contributo para o estudo da Emigraçom Galega na Rep. Argentina" de António Mêndez Berdasco, concorre às despesas de "A vida escura" de Jenaro Marinhas del Valle, de "Cantigas de Amigo e outros poemas" do professor Ricardo Carvalho Calero. A Associaçom tem ũa biblioteca de textos em galego reintegrado, a disposiçom dos sócios todas as terças-feiras de 18:30 a 20:30, na Federaçom de Sociedades Galegas. Enfim, Amigos também edita, desde 1997, um boletim, "ADIGAL", periódico profusamente repartido, que agora quer-se debruçar à aldeia global informática. Esta síntese nom tenta esgotar de modo algum o labor desenvolvido, mas dalgum jeito indica o sentido do esforço.


    Alguns de nós:

    RICARDO FLORES: O PATRIARCA DOS ESCRITORES GALEGOS

    Ricardo Flores Pêrez nasceu um primeiro de Maio de 1903 no concelho de Sada, na área periférica da Corunha. A sua era ũa família de agricultores e, portanto, o meninho tivo que compartir a formaçom académica elementar com a ajuda em tarefas diárias da fazenda como o cuidado do gado e a sementeira ou recolecçom dos produtos agrários. Desde os dez anos assistiu às aulas unicamente duas horas pola noite durante os meses de inverno. Na sua formaçom autodidacta tivérom especial relevo a leitura da Virgem de Cristal e os comentários públicos posteriores ao primeiro mitim pronunciado em galego, o que ocorreu em Betanços com a intervençom de Lugris Freire. A este "galeguismo natural" -seguindo a definiçom do próprio Flores- segue-lhe um contacto directo com o colectivo mais dinámico na reivindicaçom galeguista do primeiro terço do século XX. Durante a realizaçom do Serviço Militar em Ferrol assistiu a numerosas veladas teatrais organizadas pola Irmandade da Fala local e dirigidas polos célebres Charlón e Hermida. De regresso em Sada, Ricardo Flores estreou-se como autor teatral escrevendo várias peças curtas (Um filho de bendiçom, Conselhos do Tio Joám e Querer de comenência) que depois seriam encenadas no Pavilhom Moragra e no Salom Suíço da sua vila natal. Em 1929, Flores emigrou a Buenos Aires. Nesta cidade combinou o trabalho assalariado no sector metalúrgico com as actividades artísticas de escritor, director e actor teatral. Em qualidade de impulsor do movimento associativo galego foi Presidente da Sociedade Coral Os Rumorosos, Secretário de Actas do Conselho da Galiza e membro das directivas da Irmandade Galega e da Comissom Intersocietária. Com Eduardo Blanco Amor, Ramón Suárez Picallo, Manuel Campos Couceiro, Moisés da Presa e António Zapata Garcia -entre muitos outros- foi Ricardo Flores um destacado membro da Sociedade Galega Pondal e um activo colaborador do seu órgao de expressom: a revista A Fouce. Vários dos seus artigos recolhidos nesta publicaçom -todos eles escritos com a norma histórico-etimológica- permitem-nos qualificá-lo como um adiantado do reintegracionismo, como o fora Joám Vicente Biqueira em A Nosa Terra. Da sua obra dramática estám publicados os títulos Un ovo de duas xemas. Comedia rideira en dous pasos (Rueiro, Buenos Aires, 1956) e A nossa terra é nossa. Um remédio Malfadado e O afiador (Cadernos da Escola Dramática, Corunha, 1992). Dos seus contributos à música popular podemos achar ũa amostra na Escola de cantigas galegas (Caixa Ourense, 1984) e nas Trinta cantigas galegas (Reflexos da doma) e 50 alalás editadas pola Associaçom Civil dos Amigos do Idioma Galego. Ricardo Flores faleceu em Julho de 2002.

    ENGENHEIRO EDUARDO PARAJUÁ

    Este filho de galegos tem também as suas raízes nas terras montanhosas luguesas. A aldeia de Parajuá está na paróquia de Romelhe, no concelho de Samos. Em 1922 pai e mai emigraram à Argentina desde os seus lugares de nascimento: Sam Pedro de Farnadeiros e Abragám, no Corgo. Trás realizar os estudos primários e secundários, Eduardo Parajuá matriculou-se na Escola Nacional de Náutica, onde se graduou como maquinista naval. Com posterioridade trabalhou como técnico na reparaçom de navios e simultaneamente cursou estudos de engenharia, obtendo a licenciatura em 1964. A sua relaçom com a Galiza intensifica-se notavelmente com motivo da sua primeira visita ao lugar de que eram originários os seus devanceiros. Era o ano 1982. Ao regresso matriculou-se nos cursos de Língua e Literatura impartidos polo professor Higino Martins, naquela altura no Centro Galego. Como complemento, para obter um conhecimento mais profundo do nosso idioma, acudiu a cursos de gramática na Faculdade de Filologia da Universidade de Buenos Aires e realizou os cursos de português do Brasil no Centro Brasileiro e de português de Portugal no Centro Português. Da mao de José B. Abraira, em 1985 Eduardo Parajuá passou a assumir um compromisso essencial em benefício de toda a colectividade ao se involucrar nas tarefas organizativas do Congresso em Homenagem a Rosalia de Castro. Desde esse momento até a actualidade os seus trabalhos infra-estruturais som imprescindíveis para o funcionamento tanto da associaçom Amigos do Idioma como para a continuidade do boletim Adigal. Além do labor associativo, Eduardo Parajuá é também autor de artigos em que se manifesta um grande gosto polo documentalismo e de diversas criaçons literárias de narrativa breve. Em colaboraçom com Manuel Iglésias e o professor Martins participou na elaboraçom dum monumental dicionário informático do idioma galego-português. Eduardo Parajuá faleceu em Buenos Aires em dia 13 de Setembro de 2004.

    FIZ A. FERNÁNDEZ: O INTELECTUAL COMPROMETIDO COM A CAUSA DOS POVOS

    "Catalogado como médico, como historiador ou como antropólogo, os coñecedores da obra de Fiz Antonio Fernández coinciden que é un humanista profundamente preocupado polas civilizacións precolombinas e moi crítico ao observar a forma en que se desenvolveu a conquista de América pola Coroa de Castela, feito que el define como a incorporación dun territorio a un poder político". Deste jeito tam sugestivo começa a apresentaçom de Fiz A. Fernández que se recolhe no volume Gallegos en el mundo, editado polo governo galego em 1993 com motivo da celebraçom do ano jacobeu.

    Perfil biográfico.
    Fiz António Fernández é originário dos Ancares. Nascido no concelho de Cervantes em 1916, com só cinco anos -em 1921- emigrou com a sua família à Argentina.Compaginando trabalho e estudo, conseguiu o doutoramento em Medicina pola Universidade de La Plata em1943 e desde entom alternou o complemento da formaçom académica com a prática sanitária em diversos hospitais bonaerenses. Em 1973 incorporou-se à docência e obtivo a cátedra de História da Medicina na Universidade Nacional de Buenos Aires, impartindo cursos específicos e matérias relacionadas com a sua especialidade: História da medicina, História das doutrinas médicas ou Medicina das culturas indígenas. Como resultado do seu amplíssimo labor investigador, Fiz Fernández conta com numerosas obras publicadas de entre as que salientamos: Cara a ũa medicina sem fronteiras (1956), A outra cara da moeda (Reflexões dũa volta ao mundo) (1966), A Índia milenária e a sua medicina tradicional (1973), Tratado Geral de Acupuntura chinesa (1977), Alma e parapsicologia (1978), A coluna vertebral na génese das doenças crónicas (1979), Proposta sobre a organizaçom da saúde (1981), Propostas para a educaçom e a cultura (1981), Antropologia cultural, medicina indígena de América e arte rupestre argentina (1992), Política e moral (1995), As mil maneiras de curar para prolongar a vida (2000) e Viva cem anos. Se queres...podes (2006). A Asociaçom Médica Argentina e a Sociedade Argentina de Historiadores distinguírom-no com o título de membro vitalício. Intelectual comprometido com o indigenismo Desde a perspectiva de intelectual comprometido, propujo reiteradamente a criaçom dum instituto de culturas indígenas e o substentamento de programas de assistência nas comunidades de sobreviventes. Mas as suas tentativas resultárom infrutuosas. Por isso é crítico com a responsabilidade dos governos dos países americanos ao relegarem as investigaçons histórico-antropológicas sobre a Colonizaçom e o período das Descobertas, atitude que qualifica como ũa forma de cumplicidade com o genocídio que ainda se segue levando a cabo, já que os poucos povos que subsistem tivérom ũa civilizaçom esplendorosa e ũa riqueza cultural imensa e hoje som apenas uns fantasmas. A respeito do indigenismo, é notável a coincidência de análises com as teses defendidas por Antón Avilés de Taramancos. Da Nova crónica das Indias, o livro de relatos publicado por Avilés em 1992 para mostrar ũa nova interpretaçom da colonizaçom americana, Fiz Fernández afirma que o entusiasmou a sua leitura e que "acrescenta um novo enfoque ao guardado na minha biblioteca". O próprio Fiz Fernández é autor dum romance centrado nos costumes do povo guarani. O seu título é Panamby. Vida paixom e morte dun amor guarani. A história está ambientada no Virreinato do Peru, nũa área estratégica para espanhóis e portugueses limitada ao Sul polo Rio da Prata e ao Norte polo Amazonas. Segundo o autor, o romance "discorre nũa trama de antropologia actóctone de América, com o desejo de que os indoeuropeus conheçam melhor os indoamericanos".

    Fiz Fernández na diáspora galega
    Desde a mocidade, sendo um estudante universitário, Fiz Fernández estivo vinculado con notável protagonismo em todas as instituiçons representativas do nacionalismo galego no exílio bonaerense. Com a chegada de Castelão, participou da fundaçom da Irmandade Galega -a instituiçom catalizadora das actividades políticas do galeguismo-. Em 1946 também estivo em primeira linha e foi membro fundacional da Comissom Intersocietária de Entidades Galegas, organismo encarregado da coordenaçom da comemoraçom das datas patrióticas: Banquete de Conjo, Dia da Pátria, Dia dos Mártires...-. Desde o 11 de Julho de 1960, com Antón Alonso Rios -como Secretário Geral-, Ramón Suárez Picallo e Elpídio Villaverde, foi eleito Conselheiro dentro do organigrama do Conselho da Galiza, responsabilidade que renovou em 1963. Na actualidade é um dos patriarcas da Associaçom Amigos do Idioma Galego, a instituiçom que mantém permanentemente os cursos de idioma ao serviço da colectividade e que periodicamente edita a revista Adigal.

    ANTÓNIA LUNA

    Esta filha de Joaquim Luna (1879) e de Dominga Rodríguez Ons (1880), originários da Alvariça e a Barquinha em Noia, nasceu em Buenos Aires com outros dous irmãos, Daniel Álvaro e José Tomás. Depois de realizar o ensino primário, ingressou num instituto privado da capital argentina e posteriormente diplomou-se na especialidade de Serviço Social na Universidade de Buenos Aires e complementou a formaçom académica com os estudos de Assistente Social. Profissionalmente desenvolveu o seu trabalho como docente em escolas de discapacitados, sendo durante vários anos directora dum centro especializado na atençom de pessoas com minusvalias. Antónia Luna está desde a infáncia em directo contacto com a cultura galega formalizada. Seu pai foi presidente fundador da Sociedade dos Filhos do Partido Judicial de Noia em Buenos Aires. Nessa instituiçom foi também director dũa companhia de teatro, com actuaçons incluídas nos programas de actividades promovidas polos sectores galeguistas mais comprometidos. Ricardo Flores, o patriarca das letras galegas, lembra que nos intervalos das funçons a meninha Antónia recitava poemas de Rosalia de Castro perante um auditório que a seguia emocionado. Entre as primeiras leituras de Antónia Luna estám livros e jornais galegos ou relacionados com a Galiza. Na biblioteca familiar tivo ao seu dispor as obras de Rosalia e Curros. A informaçom mais actualizada chegava-lhe por via do dominical El Correo de Galicia, de Lence, que introduzia algũas notícias ou colaboraçons em galego. Desde 1977 foi assistente às aulas de Língua e Literatura Galegas que os professores Higino Martins Estêvez e Antom Santamarinha ditárom no Centro Galego. Precisamente quando o ajudante de Higino Martins retornou à Corunha, Antónia Luna foi escolhida como professora colaboradora nestes cursos. Actualmente continua esta actividade docente. Esta fundadora da Associaçom Civil Amigos do Idioma Galego tem participado como relatora em vários das ediçons do Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza. Os seus contributos estám recolhidos nas Actas. Outras colaboraçons escritas estám publicadas na revista Adigal.

    HIGINIO MARTINS ESTÊVEZ, ERUDITO DA LINGÜÍSTICA GALEGO-PORTUGUESA

    Ao ano seguinte de finalizar a Guerra Civil espanhola (1940), Higino Martins Estêvez nascia em Buenos Aires nũa família formada por moços originários de Santa Maria de Oia, na comarca galega do Baixo Minho. Na Universidad del Salvador da cidade de Buenos Aires frequentou estudos de Direito e Filosofia e Letras, egressando nestas disciplinas. Embora sempre tivesse vocaçom para a filologia, Higino Martins iniciou a sua experiência profissional como funcionário da banca no Banco Español del Río de la Plata, entidade em que chegou a ser Secretário Geral. A mesma universidade em que realizou a sua formaçom académica recebeu-no mais tarde como professor na Faculdade de Filosofia e Letras, encarregando-se primeiramente da cadeira de História da Língua Castelhana e mais tarde de Linguística Románica e Introduçom à Linguística. Em 1977 os membros do Instituto Argentino de Cultura Galega, dependente do Centro Galego, escolhêrom-no como professor coordenador dos cursos de língua e literatura a ditar-se nessa instituiçom. Antes assistira como aluno aos cursos de galego de Eduardo Blanco Amor, organizados pola Associaçom Argentina de Filhos de Galegos. É Higino Martins autor de amplíssima e muito variada obra de investigaçom linguística e literária. Com ajuda de António Santamarinha Delgado -professor colaborador nos mesmos cursos- é autor dũa Gramática Galega, posteriormente reformada e editada sob o título de Quadros de Gramática Galega polos Amigos do Idioma Galego em 1993. Som directrizes gramaticais dirigidas preferentemente à orientaçom do alunado dos cursos celebrados no Centro Galego e com posterioridade noutras entidades galegas. Em 1996 finalizou a redacçom dum Ensaio de Gramática do Céltico Antigo Comum, ainda inédito. Esta obra é o resultado de vários cursos teórico-práticos ditados polo próprio autor e nela recolhem-se, com carácter divulgativo, as noçons gramaticais do céltico acompanhadas dum vocabulário final e da traduçom de textos de conhecimento geral (v. gr. O Nosso Pai). Outras obras som Estudos Célticos e Românicos em Campo Galego, a traduçom directa da Táin! Bó Cúalnge ao galego (segundo o Livro de Leinster) e tem em preparaçom Nomina Gallaeciae - Anmana Kallaikias (Léxico Toponímico da Galiza). Boa amostra do seu trabalho erudito som as ediçons críticas da obra galega rosaliana. Publicados os Cantares Galegos pola Caixa Ourense, tem aperfeiçoado essa ediçom e tem também ultimada ũa ediçom com características semelhantes de Folhas Novas. Da mesma autora tem traduzido Nas Ribas do Sar. De Emilia Pardo Bazán também traduziu Os paços da Ulhoa e de Wenceslao Fernández Flórez O bosque animado. Actualmente está a traduzir O senhor das botas azuis. Este labor desenvolveu-se no quadro dos cursos de galego reintegrado, ditados ininterrompidamente desde o ano de 1977. Deles também nascêrom como derivados os cursos de proto-história galega e de linguística e filologia célticas. Também deles nasceu Amigos do Idioma Galego, associaçom civil argentina que defende a reintegraçom galego-portuguesa. Bibliografia de consulta imprescindível: -"Dos tres Lugoves Arquienos ou do que duas inscriçons latinas nos ensinan sobre o passado da Galiza", estudo publicado no número 59 da revista Grial (1978). -"Luz léxica sobre a história da cultura galega", texto da palestra pronunciada no I Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa (Ourense, 1984); publicado nas Actas (1986). -"Novas olhadas no léxico galego", texto da palestra pronunciada no II Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa (Ourense, 1989); publicado nas Actas (1990). - "Mais vozes a resgate da memória dos galegos", texto da palestra pronunciada no III Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa (Vigo, 1992); publicado nas Actas (1993).

    JOSÉ BIEITO ABRAIRA, UM BOM E GENEROSO

    Um dos incansáveis motores do nacionalismo galego na República Argentina foi José Bieito Abraira, quem tivo especial protagonismo no labor infra-estrutural necessário para organizar diversas actividades colectivas. Como homenagem particular a este filho de Meira, no Boletin ADIGAL Nº 5 (Julho-Setembro,1997) foi publicada esta notícia biográfica. Além desta publicaçom, coincidente com o décimo aniversário do seu passamento, a Associaçom Civil Amigos do Idioma Galego tem-lhe dedicado ũa modesta biblioteca. Na Galiza, no entanto, o reconhecimento público dos seus contributos ainda é ũa matéria pendente.

    José Bieito Abraira nasceu em Meira, na província de Lugo, o 31 de Julho de 1904, ainda que nos papéis apareça nado o 1 de Agosto. Na sua vila natal fijo a escola completa. Seu pai era lavrador e a par desenvolvia-se como canteiro. Ele trabalhou algo neste ofício e, também em Meira, desempenhou-se depois num comércio de roupa para homens. De 17 anos, decide percorrer o caminho fatal dos galegos. O 25 de Maio de 1922 parte para Buenos Aires, junto dum primo coirmão homónimo, José Abraira, e desembarcam o 14 de Junho. A pouco de chegado, emprega-se na loja de roupa de homens duns patrões betanceiros, chamada Los Petizos. Trabalha as longas jornadas entom consumadas com zelo e eficácia, tanto que, quando os donos liquidam a loja, eles mesmos se encarregam de colocá-lo num comércio de chapéus, de propriedade duns catalães, chamado Tadeo. Ali Carlos Gardel compra os seus famosos Orion, de feltro rígido e borda revirada e simpatiza com ele. Nesse âmbito os seus patrões nom falavam outra língua que a sua própria, o que fai cismar na necessidade de defender a língua e o sentimento da pátria. Falando a língua galega recuperaremos a dignidade e a liberdade, romperemos o assovalhamento colonial de séculos do povo galego. Desses anos moços conservava a memória dum amigo, Ramom Rial Seixo, as actividades da revista Céltiga e as dos coros, que daquela cumpriam a funçom que hoje os conjuntos de música celta. No Ultreia, dirigido por Manuel Prieto Marcos, cantou e ali conheceu a que seria sua mulher. Ali cresce a sua paixom galeguista, ainda que nom foi membro da Sociedade Nacionalista Pondal. Conhecia e era amigo dos mais dos seus membros, mas o compromisso fai-se nele activo na época posterior, na guerra civil. Em 1930 casa com Mercedes. Na festa da boda, na casa da noiva, cantou Suárez Picalho e tocou o piano Eduardo Branco Amor. Na casa dos sogros viverá um tempo até que, em 1934, se estabelece na rua Federico Lacroze, nº 4086, no bairro da Chacarita, onde nascerám os filhos e terá tenda de roupa no ramo que melhor conhece. Por entom já participa activamente na vida da colectividade. No '36 nasce-lhe o seu filho Carlos, no ano seguinte o segundo -Demétrio-- e no '51 Maria do Carmo. O centenário do nascimento de Rosalia, em 1936, nom se pudo comemorar polos acontecimentos da guerra civil, na pátria e na emigraçom. No mês de Julho de 1939 fijo-se em Buenos Aires ũa semana de actos, brilhantes e dignos da cantora do Sar. Abraira foi o secretário da comissom organizadora. Nestes anos já é o nacionalista activo que deixou pegada em todos os que o conhecêrom. Associado ao Centro Galego de Buenos Aires, participa na fundaçom da agrupaçom interna A Terra. Como secretário dela no '40 concorre a Montevideu para receber o Guieiro Castelão, quando este veu para a Argentina. Nos dez anos posteriores da vida de Castelão, Abraira foi um dos seus amigos mais fiéis. E nom duvidava ao afirmar que conhecer Castelão foi o acontecimento central na sua vida. Desde essa chegada até a morte da senhora Virgínia -viúva de Castelão-, Abraira e a sua mulher, junto de Manuel Puente, Rodolfo Prada, Perfeito López, Luís Seco e outros, tivérom sempre o cuidado do bem-estar do ilustre matrimónio. Mortos Puente e Prada, Abraira foi recolhendo com zelo quanta documentaçom do Guieiro topou com o intuito de restituí-la à Terra. O Museu de Ponte-Vedra dispom hoje dum importante fundo da obra de Castelão mercê da constância teimuda do nosso infatigável "Tavão". Rematando este seu labor de verdadeiro testamenteiro, em Junho de 1984 acompanhou a repatriaçom dos restos do prócer. Viajou do seu pecúlio, enquanto os que em vida lha figeram impossível fôrom com passagem oficial pagada à conta do povo galego. Deu Abraira assim, mais ũa vez, cumprimento à sua obriga de lealdade a Castelão e à Galiza. Extenso e afervorado foi o seu labor patriótico do Tavão. Ao criar-se em 1941 as Irmandades Galegas, instrumento da política galeguista de Castelão, entom presidida por Antom Alonso Rios, Abraira é seu secretário e como tal organiza as de Mendoça, Rosário e Montevideu. Aqui vemos ũa constante de toda a sua vida: nunca figura adiante, sempre trabalha num segundo plano como verdadeiro motor. Pudera pensar-se que por nom ter estudos superiores lho coutava, mas equivocaríamos a análise. Por um lado, era homem de muita leitura e grande conhecimento do mundo e da política, que frequentara pessoas do maior nível intelectual; por outro, palpitava nele a paixom da eficácia estratégica e ũa entrega aos ideais que reflectia fielmente a que vira em Castelão, entrega que apurou de todo qualquer rasto da vaidade pessoal, que no fundo deveu de ter, mas que reprimiu. No período 54-58, em merecido reconhecimento pola tarefa desenvolvida no seio da colectividade, integrou como vocal a Honorável Junta Directiva do Centro Galego de Buenos Aires, colaborando na comissom de cultura e acçom social. No '56, coincidindo com o centenário do histórico "Banquete de Conjo", celebrou-se em Buenos Aires o Primeiro Congresso da Emigraçom Galega em América. Assistírom, entre os delegados vindos de todo o continente, Emílio Gonçález Lôpez, por Nova Iorque; Gerardo Álvarez e Maximiliano Matalobos, por Cuba; Marcial Fernández e Francisco Comessanha, por México; José Velo Mosqueira, pola Venezuela; Luís Tovio, Canaval, Meilám e Martínez Castro, por Montevideu; e Ramom Suárez Picalho, polo Chile, além de inúmeras e importantes representações da colectividade galega da Argentina. Deste congresso, presidido por Manuel Puente, Abraira também foi secretário. Em 1968 celebrárom-se nesta cidade os "Jogos Florais do Idioma Galego", aos que assistírom, entre outros escritores argentinos de importância, Jorge Luís Borges e Francisco Luís Bernárdez, de antepassados galego-portugueses. Abraira participou da sua organizaçom, sempre de atrás, ainda que apareça como secretário de actas. Apaixonado, generoso e às vezes desmesurado, o seu amor à Galiza era total e irrestrito. Impulsou com Manuel Pedreira o periódico reintegracionista Pátria Galega, cujo primeiro número apareceu em Abril de 1982. Nesse mesmo ano, assina o manifesto reintegracionista que ADIGAL vem de reproduzir no seu número 4, como antecedente histórico desse movimento. Aqui quadra novamente precisar que ele era o promotor, o autor da ideia, o que punha a trabalhar os que deviam redigi-lo, assiná-lo, enfim, o que na penumbra imaginava, concebia, juntava, aguilhoava. Sua foi a ideia dos "Simpósios Internacionais da Língua Galego-Portuguesa" organizados em Buenos Aires polos Amigos do Idioma Galego, que entom eram alunos dos cursos reintegracionistas, daquela sem outra estrutura orgânica que o seu cérebro febril. O primeiro reuniu-se na Biblioteca do Centro Galego de Buenos Aires, os dias 12 e 13 de Agosto de 1983, com assistência de linguistas da Galiza, área luso-brasileira, Catalunha e a Argentina, e com a presença especial da doutora Maria do Carmo Henríquez Salido, presidenta da AGAL. O segundo Simpósio, em memória de Rosalia no centenário do seu passamento, celebrou-se no mesmo âmbito, os dias 22, 23 e 24 de Agosto de 1985, com a presidência de honra da doutora Henríquez Salido e do insigne professor doutor Ricardo Carvalho Calero. Repitamos o que já se dixo desses acontecimentos: "Cúmpre salientar que tanto nũa como noutra ocasiom a organizaçom dos actos contou com a animaçom de José Bieito Abraira, o Tavão, sempre aguilhoante, às vezes enfadonho, mas nunca claudicante". O sábado, 5 de Setembro de 1987, já convalescido dũa intervençom cirúrgica, estivo como sempre nas aulas de galego reintegrado, entom ditadas fora do Instituto a causa da atitude prevalente. Sente-se mal, concorre ao Centro Galego e, ingressado, morre às dez e trinta do dia seguinte. Em 1983, ante a presidência da AGAL, predixera que antes de cinco anos teria de reunir-se com os que se adiantaram a partir. Muitos som os que lembrando as suas palavras desses momentos tenhem a convicçom de que ũa percepçom quase extra-sensorial dos acontecimentos políticos que na Galiza estavam para produzir-se deitou a gota que transbordou a copa da sua tristeza e o levou a deixar-se morrer. Que a paz esteja com ele, que tempos melhores virám e o seu espírito estará presente

    ANTÓNIO MÊNDEZ BERDASCO

    Nascido em Buenos Aires o 3 de Fevereiro de 1918, António M. Berdasco licenciou-se em Farmácia e exerceu a profissom de 1947 a 1972. Entre os anos 1972 e 1986 foi gerente de indústria e produçom de "El Hogar Obrero, Cooperativa de Consumo, Edificación y Crédito". Em 1986, jubila-se, com 46 anos de serviços, e passa a integrar com carácter honorário o "Conselho de Administraçom" da Cooperativa. Nesse ano, representando a instituiçom é designado presidente da "Federación Argentina de Cooperativas de Consumo" e integra o conselho directivo da "Federación Argentina de Cooperativas de Vivienda". Em 1988 em representaçom da "Municipalidad de la Ciudad de Buenos Aires" é designado membro do directório do "Mercado Central".
    Actuaçom política:
    Em 1956 afilia-se ao Partido Socialista Democrático no que actúa até 1992, integrando desde 1957 as diversas juntas executivas dos centros partidários das secçons 6ª e 7ª da Cidade de Buenos Aires, representando-as nos congressos partidários locais e nacionais. Em 1991 foi eleito integrante da Junta Executiva do Partido Socialista Democrático da Cidade de Buenos Aires.
    Actuaçom na colectividade:
    Associado à "Sociedad Residentes del Municipio de Porriño" desde 1945, integra a Comissom Directiva desde o ano 1947 até 1956 e como delegado assitiu às assembleias da "Federación de Sociedades Gallegas", nas que sempre tivo importante participaçom que em ocasions motivárom que exercesse a presidência da Mesa da Assembleia ou da comissom eleitoral encargada do controlo da eleiçom da Junta Executiva da Federaçom. No ano de 1956, inserto na actividade política argentina afasta-se do seu trabalho a prol de Galiza, até que no mês de setembro de 1994, foi à antiga sede do Centro Galiza, interessado na sua biblioteca e descobriu as aulas de Língua Galega e foi assim que recomeçou a nova actividade no seio da colectividade. Incorpora-se como aluno dos cursos nesse mesmo mês de Setembro e em conhecimento da existência da "Associaçom Civil Amigos do Idioma Galego" afilia-se e participa nas actividades organizadas pola instituiçom. Deste jeito assiste à reuniom do Conselho Directivo do 13 de Janeiro de 1996 e propom a publicaçom dum boletim, em idioma galego, oferecendo sua colaboraçom a tal efeito. Assim foi que no bimestre Agosto/Setembro apareceu o número 1 do BOLETIN ADIGAL, do que foi efectivo factótum, como gerente, diagramador, publicitário e jornalista, assinando "O rato da livraria" as colaborações. Na assembleia geral ordinária do 26 de Abril de 1997 foi designado secretário do conselho directivo da Associaçom, cargo no que foi reeleito até a sua morte, em Outubro de 2005. Os últimos anos da sua vida dedicou-nos a escrever um livro: "Contributo para o estudo da História da Emigraçom Galega na República Argentina" Os Amigos do Idioma Galego decidiram publicar-lho quando o estava a rematar. Em Agosto tirou uns capítulos incipientes que teriam retrasado a saída. No seu último mês tivo a segurança de que o seu esforço daria no alvo. Fiéis ao compromisso pactado Amigos do Idioma Galego financiou a ediçom que saíu do prelo em Dezembro de 2005, dous meses depois da sua morte.
    Dia da Galiza Mártir:
    Sendo secretário de actas da "Sociedad de Residentes de Porriño" redigia a memória da entidade, na que sempre se recordava os Mártires Galegos. Nos últimos vinte anos, com D. Ricardo Flores, actuou como mantenedor das actividades com as que a colectividade galega da Argentina lembra cada 17 de Agosto os represaliados políticos galegos.

    ANTÓNIO PÉREZ PRADO
    (auto-história)
    Nascim o 19 de novembro de 1926 no sobrado do armazém e bar “El Pelayo”, na esquina da rua Moreno com Lima -hoje ocupada por um formoso jacarandá que sempre celebra o meu dia de anos com pródigo dispêndio de flores brancas e azuis. Fum o primogénito dum par de galegos de Lugo que se conheceram na emigraçom, que se quijerom muito e nom deixarom as suas ideias: meu pai, conservador; minha mãe, anarquista, os dous fiéis ao seu torrom. E tanto que, naqueles tempos de longas viagens por mar, decidirom levar-me à sua terra para o batismo nũa igreja românica da sua província galega. E além disso, lograrom que, para ser os meus padrinhos, viajassem de Camaguei, Cuba, meu tio António e sua mulher, que hoje descansam num cemitério de Nova Iorque.
    De pequeninho fum leitor voraz, e já na escola secundária colecionava -além de repetidos e soados suspensos nalgũas matérias- ũa coleçom de livros que hoje som decanos das minhas esmagantes e repetidas bibliotecas. Os pouquíssimos que me teem por autor estâm em boa companhia. Deles o mais citado é “Los Gallegos y Buenos Aires”, de 1973, que dediquei a minha mãe com a frase “à minha mãe galega, que emigrou para fazer-me portenho”. Anos antes, em 1967, dedicara o meu livro primeiro a meu pai, já morto, com a frase “Em lembrança de meu pai”.
    Forçado a seguir estudos secundários no por entom chamado “Comercial”, que eu detestava, fum aluno colecionista de livros, suspensos e admoestações. Durante anos, sem aforrar meios legais e nom tanto, continuei a nutrir a minha biblioteca, que por culpa ou virtude do acaso me levou para a profissom médica. Foi fazendo-se mais técnica nalguns sectores, mas sempre conservou a primazia do que chamamos humanidades.
    Nom vou ementar os modestos trabalhos que lograva e perdia -gozosamente- na adolescência -um deles, parece mentira, na Casa de Governo-, salvo um, que tivo decisiva influência no meu destino. Foi de empregado da Frota Mercante do Estado, onde me desempenhei bem, tivem salários generosos e, conforme a qualificaçom, prémios-estímulo. Mas num dos aumentos de salário nom fiquei satisfeito e decidim, nada menos, emigrar. Fijem-no num navio novinho do trinque que semelhava um gigantesco iate de luxo. Chamava-se Rio de la Plata e nele, com visa de imigrante e todos os direitos, iniciei a aventura da minha viagem aos EUA, onde hoje tenho vários netos.
    Na grã urbe de Nova Iorque fijem quase de todo, de soldar peças de automóvel a estropiar boa madeira como ajudante de carpinteiro. Ũa das estratégias para sobreviver com míseros trinta dólares por semana -o salário mínimo nesse ano (1950, no começo da guerra de Coreia) era juntar-se com um par de amigos e alugar um tugúrio num bairro como Brooklyn-
    Nesse emblemático lugar passei quase toda a aventura emigrante com dous camaradas. O conteúdo dũa lata de feijós com ũas presas de arroz cozido era a nossa comida, insuficiente e habitual. Ũa maneira de assegurar o sustento por um tempo, e quem sabe a que preço, era o treinamento básico para a guerra de Coreia. Eu, por ser imigrante legal (cousa nom muito comum no pitoresco bairro) estava alistado, mas decidim volver a Buenos Aires depois dalguns meses, que ao menos me servirom para familiarizar-me com o inglês. De novo em Buenos Aires, conseguim trabalho administrativo num instituto de Neurocirurgia que acolhia muita gente do exterior, em boa parte capaz de usar o idioma no que vinham redigidas a mor parte das revistas especializadas. Nesse ambiente e em pouco tempo fijem-me aceitável tradutor e intérprete de inglês -língua hoje de boa parte da minha família, por caso meus netos.
    No instituto tinha tempo livre e decidim pô-lo num enorme edifício vizinho: a Faculdade de Medicina. Assistim aos cursos e fum -apesar dos antecedentes- um bom aluno. E recebim altas qualificações. Nos derradeiros anos da carreira trabalhei de técnico em institutos hematológicos e de serviços da especialidade, onde ao cabo fum reconhecido e estimado.
    O Dr. Ivor Dunsford, principal científico do famoso Centro de Sheffield, Inglaterra, fora convidado a brindar ũa série de palestras a respeito dos modernos usos e teorias das terapias que incluíam o sangue. Foi nos começos dos anos sessenta. Eu tivem a honra de ser tradutor das magistrais palestras e de vários dos seus artigos. Segundo Dunsford, era mister que um especialista argentino fosse trabalhar a Sheffield, e sugeriu meu nome e o recurso para que ao país nom lhe custasse um centavo: ũa pensom de estudo do Conselho Britânico, que ganhei em concurso e me permitiu viajar e morar naquela cidade nos anos 64 e 65. No segundo ano o mestre Dunsford morreu repentinamente e eu procurei rematar, na medida das minhas forças, os seus trabalhos. Apesar de generosas ofertas, nom aceitei um posto permanente.
    No ano seguinte, 1966, um concurso internacional da Cruz Vermelha Internacional levou-me ao prestigioso serviço de transfusom de sangue e derivados que dirigia o professor J. J. van Loghem nas vastas e modernas instalações do sul de Amsterdam, Holanda.
    De volta na Argentina, no sistema médico municipal cheguei a chefe da divisom da especialidade, o que na prática me aumentou as funções burocráticas. Dentre as menos aborridas citarei a redaçom das primeiras normas que tiverom vigência no país para a especialidade.
    À margem do ofício médico -desenvolvido quase todo nos hospitais públicos e no sanatório do Centro Galego-, as minhas ocupações mais constantes e reconhecidas forom as dedicadas à naçom galega e à divulgaçom científica.
    A divulgaçom referida sobretodo aos protagonistas argentinos. Um livrinho meu, do ano 1984, que leva o título de Argentinos en la ciencia, reproduz muitas páginas que assinei no jornal La Nación. Antes, o primeiro do género que assinei foi um tominho que publicou a Editora Columba na coleçom Esquemas. Começavam com um Que... prometedor. Por caso, o primeiro, assinado polo grã mestre Francisco Romero, chamava-se Qué es la filosofía. O meu, obviamente, levava o título Qué es la sangre.
    Em Rádio Nacional, por mais de dez anos tivem um espaço que se difundia em oito idiomas: castelhano, português, francês, alemam, italiano, inglês, árabe e japonês. Eu escolhia os assuntos e redigia o texto que se gravava e repetia algũas vezes durante ũa semana. Sete equipas de tradutores faziam as versões e gravavam nos seus idiomas. Aproximadamente no mesmo tempo colaborava no suplemento de La Nación com recensões de livros vários.
    Quanto à participaçom que tivem e tenho em prol da naçom galega, tentarei ser breve. Já dixem que fum levado a batizar a Lugo polos meus pais. Andados os anos, para lá levei as suas cinzas nũa das viagens em que receberia ũa honrosa distinçom que me concederam polos anos de luita pola sua terra natal.
    Nom vou enumerar trabalhos e palestras, nem, nos tempos maus do franquismo, algũa viagem à Galiza como modesto agente provocador. Mas nom devo deixar de ementar a minha autoria do livro do filme “Castelão”, pensado como série televisiva, que dirigiu o argentino Jorge Prelorán, da Universidade de Califórnia. Narra em três partes a vida do herói máximo do nacionalismo galego, morto em Buenos Aires depois dum longo e penoso exílio. E já chega com esta espécie de informe que ninguém me pediu e nom sei por que me sentim obrigado a esboçar ao voo da máquina. Espero que tenha sido um pouco divertido. Estou certo de que, no nosso queridíssimo bairro de Montserrat, há muitos outros vedranhos que -a dedadas como eu ou perante um aparelhinho adequado- podem contar o que chamaríamos “auto-histórias”, com as que se fai, com lembranças e mesmo com olvidos, isso que se chama memória colectiva.
    António Pérez Prado

    MANUEL IGLÉSIAS
    (auto-história)
    Nascim na paróquia de Carrazedo, lugar de Casal de Rique, concelho de Caldas de Reis, província de Ponte-Vedra, o 16 de Septembro de 1935. Som filho de André Iglésias Loenço e de Maria Iglésias Gil. Terem o mesmo apelido nom indica que fossem parentes. Em Fevereiro do ano 1936 meu pai emigrou a Buenos Aires. Eu fiquei na Galiza com minha mai na casa dos avós maternos. Ali fum criado, junto dos avós, as irmãs de minha mai e coirmãos; éramos ũa família numerosa. Lembro sermos mais dũa duzia na mesa da cozinha à hora de jantar.
    Dous irmãos da minha mai (os únicos varões) estudarom em colégios religiosos da ordem de La Salle, em Bujedo. Um deles, o tio Francisco, ainda vive e é director do Colégio dos Órfaõs de São Caetano, em Braga, Portugal. É escritor. O mais velho, o tio José, nom pudo findar os estudos por razões de saúde e voltou à aldeia, onde ditou aulas. Foi arredor do ano 1939. Foi o meu primeiro mestre, até a sua morte. Eu era um neno de quatro anos e levava-me à escola a carrancha-pernas nos ombreiros. Morreu moço. Depois fum a várias escolas, quase todas privadas. Só fum a duas estatais, por pouco tempo. O ensino era obviamente em castelhano, inda que às vezes os mestres se dirigiam aos alunos com algũa expressom galega, como "entendes, meu filhinho" As conversas entre os alunos eram sempre em galego. Por certo no galego deturpado polo castelhano, por falta dum padrom galego. Nom lembro se terem ditado aulas em galego. Daquela os rapazes trabalhavam a par dos adultos nos labores rurais, e o tempo dedicado ao estudo nom era contínuo.
    Fiquei na Galiza até 1949. Em 1948 meu pai decidiu chamar a mulher e o filho para Buenos Aires. Mas as reviravoltas da vida fijerom minha mai adoecer e morrer em Novembro de 1948. Assim foi que viajei sozinho, de treze anos, para conhecer meu pai na Argentina um 8 de Julho de 1949. Neste país findei os estudos primários, também nũa escola privada, "Cangallo-Schule", escola alemã, onde cursei os dous últimos anos. Ali comecei a estudar idiomas: alemam, inglês e francês. Por que ũa escola alemã? Cumpre aclará-lo. Meu pai trabalhava num comércio cujo dono também era galego, e tinha um filho dous anos mais novo ca mim, que assistia a essa escola. Um dos professores, Karl Kasis, também lhe dava aulas particulares de alemam, inglês e francês... e o galeguinho recém-chegado passou a fazer parte dos alunos.
    Findados os primários, fijem os secundários na "Escuela Superior de Comercio Carlos Pellegrini", licenciando-me de "perito mercantil" em 1956. Os dous últimos anos (5º e 6º) compartilhava os estudos com o trabalho nũa instituiçom bancária. Os estudos terciários fijem-nos na Faculdade de Ciências Económicas da Universidade de Buenos Aires, onde me licenciei de Contador Público, já casado e com ũa filha de dous anos. Desde os 18 anos, sempre estudei trabalhando a par.
    Como foi o meu contacto com o reintegracionismo? Hei confessar que nos anos de estudo e de boa parte do exercício profissional andei afastado do galego, salvo na família, porque meu pai tinha sete irmãos em Buenos Aires, e éramos de reunirmo-nos muito e de visitar-nos. Aí o galego mantinha-se presente. Mas na escola, sempre e a todo custo, procurei despojar-me do sotaque galego, a causa da discriminaçom (na altura os galegos éramos vítimas de burlas polo nosso castelhano misturado de galego), o que nom deu difícil. Tanto que hoje ninguém me reconhece como galego ao falar castelhano. Mas o ser galego estava vivo dentro de mim. Antes de saber do ensino do idioma galego nesta banda do Prata, eu já lhe escrevia à família da Galiza, na língua de Rosalia, da que procurara as "Obras completas".
    Quando morreu meu pai, em Maio de 1986, produziu-se-me na consciência ũa necessidade perentória de avivar o lume galego. No ano 1987 soubem que no Centro Galicia se ditavam aulas de galego, por professores que enviara a Junta. Apontei-me e assistim. A pouco descobrim, por um aviso de jornal, que havia cursos de idioma galego "reintegrado", ditados polo prof. Higino Martins. E fijem simultaneamente os dous cursos. A dizer verdade, no começo, via desajeitada a ortografía reintegrada. Mas isso foi por pouco tempo. As aulas do Higino, e nomeadamente o proselitismo de D. Ricardo Flores, fijerom que eu lhe virasse as costas ao "castrapo". Bem me lembro; quando findavam as aulas de reintegrado -daquela dadas no "Sindicato del Personal Superior de la Dirección General Impositiva"-, eu e mais D. Ricardo ficavamos às vezes mais dũa hora, na rua, a falar em galego. O porquê do NH e do LH. E do Ç, do G, do J, ou do X. Editava um livrinho artesanal, de versos, que levava por título "Reflexos da doma (cantigas galegas) ", que repartia a quantos assistiam às aulas. Assim foi nascendo em mim um amor entranhável polo inesquecível patriarca e também ũa grande amizade, passando eu a ser, nos últimos anos da sua vida, o seu "secretário", para pôr a limpo no computador a sua obra (conferências, cantigas, alalás, etc.) Era incrível a sua prodigiosa memória. Recitava de cor qualquer cantiga, verso ou alalá. Eu ficava verdadeiramente pasmo polos seus conhecimentos linguísticos e musicais.
    Também daquela conhecim Eduardo Parajuã, que era tesoureiro de "Amigos do Idioma Galego". Ele foi que me associou, outorgando-me o número 51. Pouco tempo depois transferirom-me o cargo de tesoureiro, que estou a desempenhar até hoje, andados mais de vinte anos. Com Eduardo fijemos ũa grande amizade. Coincidimos no III Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza, em Vigo e Ourense, do 1990, junto de D. Ricardo, Antónia Luna e Higino Martins. Percorrimos muitos lugares de Lugo e fomos aos Ancares visitar as palhoças. Nem falar das vezes que visitamos as muralhas, das que era apaixonado e tinha muita informaçom. Foi a primeira volta à Terra, trás 41 anos de ausência. Com Eduardo também fijemos juntos dous anos o curso de português, no Clube Português.
    No ano 1999 voltei a Galiza, esta vez na companhia da minha esposa. Percorrimos boa parte da península e também nos deslocamos a França e Itália.
    Rematando esta história que ninguém me pediu, quero dizer que desde a minha incorporaçom a Amigos do Idioma Galego assumim o compromisso de me envolver nos labores administrativos e contábeis necessários para o funcionamento da associaçom e a sua relaçom com organismos públicos de controle, como a AFIP, a IGJ, etc. Além do labor associativo, tenho colaborado na redacçom do Boletim "Adigal" com algũa modesta criaçom literária (Um ovo de pimentom) e outros artigos breves que nom paga a pena mencionar. Som da minha autoria as colunas "Encruzilhadas" e "Viajando polo dicionário".
    Ao cabo, nom quero deixar de ementar a minha colaboraçom na ediçom do livro de António Mêndez Berdasco "Contributo para o estudo da história da emigraçom galega na República Argentina". Nom é um grã mérito meu, sim um trabalho nom registado nenhures. António passava-me os manuscritos e o meu trabalho consistia em passá-los a limpo no computador, corrigindo (com a autorizaçom do autor) o texto manuscrito com os meus conhecimentos do idioma, para depois passar-lho ao Higino para dar-lhe outra peneirada léxica e estilística. Ũa cópia do texto polido entregava-se-lhe ao autor do livro, que se sentia feliz ao reconhecer nele a sua voz sem lixos.
    Manuel Iglésias


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