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Outubro - Dezembro 1999 CONTEÚDO NO CAMINHO DA CONCÓRDIA (ESTAMOS A TEMPO) Nos últimos meses do ano que finalizou muitas pessoas mais ou menos comprometidas com a língua galega tivemos algũas surpresas agradáveis que nos renovam as esperanças na viabilidade da cultura subordinada. Na prática totalidade dos casos nom se produzirom grandes câmbios no discurso das destacadas personalidades do nosso panorama cultural. Aconteceu agora essas opiniões terem sido acolhidas inda que minimamente nos meios divulgativos, nomeadamente no jornal que chega a mais de meio milhom de habitantes deste país, e paulatinamente forom chegando reacções, como a convocatória dum encontro na Faculdade de História em Compostela.Na verdade, no foro de Corcuviom nom se descobrirom teses revolucionárias. A novidade foi que se debaterom no lugar e momento oportunos, num clima de diálogo cordial e honesto, próprio da talha intelectual dos que ali estavam. Aliás, a opiniom de Suso de Toro brilhantemente resumida com anterioridade nas páginas de -"La Voz de Galicia" já fora exposta com igual rotundidade vários anos atrás. Precisamente um fragmento dum seu artigo sobre o mesmo assunto e sob idênticos pressupostos fora apresentado como tema de exame de análise de texto ao estudantado galego que em 1995 se apresentava às provas de ingresso na Universidade. Nom se trata portanto de nenhum arribismo oportunista; é ũa arriscada aposta de alguém que expom publicamente o seu compromisso com o futuro desta cultura e desta terra, mesmo sabendo que pessoalmente tem muito que perder. Outro caso que levantou polémica foi o uso do idioma galego nas instituições europeias. O comportamento do deputado Camilo Nogueira nom devera chamar tanto a atençom, porque simplesmente deu continuidade a um labor que já iniciara no mesmo parlamento José Posada em Junho de 1993. O Nogueira mantivo-se fiel a ũa linha de actuaçom que tem continuidade histórica desde a fundaçom das Irmandades da Fala. Nom fijo nada que nom teriam feito os irmãos Vilar Ponte, Castelão, Outeiro Pedraio ou Ricardo Carvalho Calero. Neste debate já se tenhem manifestado personalidades de procedências sociais, profissionais e ideológicas diversas. Sistematicamente coincidem num ponto: a falta dũa política linguística tendente a recuperar o idioma galego. Trás quase vinte anos de vigência, o quadro legal emanado da transiçom política nom serviu a reorientar o ritmo de desgaleguizaçom. E está demonstrado que o problema nom radica só nas características desse quadro decerto raquítico e subordinado , senom na peculiar aplicaçom que fijerom dele os sucessivos governos autonómicos. O quadro legal subordina-nos, e os gestores da Junta sempre o tomarom como referente máximo e nunca transmitirom credibilidade na aplicaçom a ũa sociedade necessitada de referentes no caminho normalizador. Mal podiam transmitir confiança num assunto em que contemporizam para nom mostrar às claras o seu posicionamento no melhor dos casos de indiferença ou despreocupaçom polo galego. Passarom vinte anos. A Galiza que hoje temos nom é a mesma que a da transiçom. Naquela altura talvez nom fossem possíveis maiores compromissos; por isso agora é o momento de superar a etapa iniciática. Nas grandes cidades abriu-se ũa porta para demonstrar que é factível ũa nova glotopolítica das instituições galegas. Aí tem a classe política um repto para nos convencerem de que nom todos e todas som iguais. No presente debate observa-se um grande consenso nas ideias principais Com esta unidade podemos corrigir atrocidades como a arbitrária política de subsídios aos meios de comunicaçom ou o decreto das deficiências auditivas e a falta de aplicaçom do número mínimo de matérias a explicar em galego no ensino. Neste momento histórico deveríamos ter em conta que normalizar um idioma consiste em recuperar e ampliar os seus usos, a par que se procura maior qualidade no código. A prioridade é que se use mais e melhor o galego. Neste ponto os reintegracionistas nom acreditamos ingenuamente em que a reforma da normativa irá resolver todos os problemas, mas temos a certeza de que a sua modificaçom com critérios histórico-etimológicos vai contribuir a dinamizar o uso social. A convergência de opiniões nestes últimos debates é bem estimulante. Agora aguardamos que se mantenha este clima de prudência e que nom se tomem acordos precipitados (obviamente a reforma deverá fazer-se muito antes dos quinze anos que propom o professor Alonso Montero!!). Ainda resta ũa terceira matéria pendente. À maior brevidade temos que eliminar as práticas inquisitoriais imperantes no mundo académico, e nomeadamente no âmbito editorial. É ũa vergonha que a todos nos agrava; aos governantes por exercerem de censores e verdugos, e à sociedade civil por permitir a supervivência institucional desses elementos. As derradeiras obras do Prof. Ricardo Carvalho Calero algũas delas escritas quando o autor estava enfermo de gravidade só foi possível publicá-las mercê do apoio generoso de pequenos empresários, amigos, sociedades culturais sem ânimo de lucro e ũas dúzias de estudantes universitários que nos ocultávamos com pseudónimos para evitarmos represálias. O mesmo aconteceu com Ernesto Guerra da Cal e acontece ainda hoje com Jenaro Marinhas. Sentar-se para revisar e planificar... e fazê-lo com vontade de concórdia. Som as melhores homenagens que no ano 2000 lhe podemos tributar a Castelão, Murguia e nos seus nomes a toda a cultura da Galiza. Bernardo PENABADE REI Presidente da Fundaçom Mendinho MANUEL COLMEIRO Estávamos a fazer a sua biografia quando, a sexta-feira 1º de outubro de 1999, morreu o Manuel Colmeiro Guimarães (Guimarás). Nom o soubemos de imediato: por seu expressodesejo a notícia da morte foi comunicada depois do enterro, realizado no cemitério da sua paróquia natal. Com o seu passamento desaparece ũa das figuras fundamentais da plástica galega. Falando dele Carlos Maside dixo em 1934: Se os povos caminhassem parelhos em sensibilidade com a obra dos seus criadores representativos, hoje Galiza berraria em pé os seus júbilos por ter parido um pintor, o PINTOR, carne da sua carne, terra da sua terra. Colmeiro nasceu em Sam Cibrão de Chapa (Silheda, Pontevedra) o 7 de agosto de 1901. Até os doze anos passou a infância entre Chapas e Sam Fiz de Margaride, donde eram originários os Colmeiro. A essa idade viajou para Buenos Aires com seus pais, que emigraram para a Argentina tendo ele nove anos. Na emigraçom alterna o estudo escolar com a dedicaçom ao desenho. Em 1917 inicia estudos de pintura. Por um ano estuda como aluno livre na Academia de Bellas Artes, que abandonará para integrar-se «num grupo artístico de aprendizado autodidacta, integrado, entre outros, polo pintor argentino Demétrio Urrutia e polos espanhóis Planas Casas, escultor, e Pompeu Audivert, gravador. Em Buenos Aires, a par da dedicaçom à pintura, trabalha nũa sapataria, assiste a ũa tertúlia de intelectuais e artistas e colabora nNola publicaçom da revista Fuego. Expujo por vez primeira aos vinte anos nũa colectiva com maioria de pintores argentinos. Pintou muito do natural, no porto e nas ruas de Buenos Aires. Ao tempo interessa-se pola literatura e pola filosofia. No ano de 1926, à idade de vinte e cinco anos voltou para Galiza, instalando-se em Sam Fiz de Margaride e de todo dedicado à pintura. Em 1928 fijo a sua primeira exposiçom individual nos salões do Faro de Vigo, principal jornal dessa cidade. Também em 1928 é pensionado pola Deputaçom de Ponte-Vedra para ampliar as suas expectativas artísticas . A pensom foi-lhe prorrogada mais dous anos. Nesse tempo residiu em Madrid e também em Barcelona. Nesta cidade expom e vincula-se ao ambiente artístico mais dinâmico. Fai amizade com os pintores Villa, Obiols, Benet, os escultores Fenosa, Ferrant, e os críticos Guasch, Riva e Sucre, entre outros. Em 1929 casa com Emília Gonçález. Sam Fiz de Margaride converte-se no seu centro de operações e dali desloca-se com certa frequência a Santiago, Vigo, Ponte-Vedra, etc., para expor ou participar nas tertúlias mais interessantes. No ano 1931 expujo na sala Maragall de Barcelona. Um ano depois fazia-o no Círculo de Bellas Artes de Madrid. Nesse mesmo ano vai a Lisboa, Lugo, etc. Um ano depois participa na mostra da nova pintura galega que tivo lugar na Barraca de Garcia Lorca. A guerra civil surpreende-o no seu lar de Margaride. No cabo desse ano de 1936, sob o pretexto de expor em Lisboa, permitirom-lhe cruzar a fronteira. Já na capital lusitana tomou o rumo do exílio para Buenos Aires, a cujo porto arribou num barco inglês a começos do ano 1937. Quatro anos depois reúnem-se-lhe a família. Nesta cidade desenvolverá intensa actividade. Além do campo da pintura e desenho em tela e papel, transita a ilustraçom de livros, publica álbuns de gravuras e executa grandes murais em diversos edifícios. Em 1946, com um colectivo de pintores argentinos (Urrucha, Berni, Castagnino e Spilimbergo), realiza os famosos murais da Galeria Pacífico de Buenos Aires. Desde 1940 a sua pintura centra-se na lembrança da Galiza e no horror da guerra, que reflecte de jeito alegórico. Nesta etapa participa no âmbito intelectual dos exiliados espanhóis, nomeadamente dos galegos, vinculando-se com Castelão, Seoane, Varela, etc. Em Buenos Aires fijo exposições individuais nas salas de Amigos del Arte (1937), Instituto Francés de Estudios (1943) e na Galeria Müller (1947). Na capital argentina reside até 1948, ano em que decide trasladar-se a Paris, aonde chega em janeiro de 1949. Desde 1950 alterna a residência parisina com curtos períodos na Galiza, visitando Vigo e principalmente Sam Fiz de Margaride. Estes períodos prolongarom-se paulatinamente depois de 1977. Além das exposições parisinas, torna a expor em Madrid, em 1958, na galeria Bosca. Neste período Colmeiro integra-se no mais selecto grupo parisino, a chamada Escola Espanhola de Paris, junto de Bores, Cossio, Domínguez, Picasso, de la Serna, Peinado, A. Ortiz e outros. Em 1968 dedica-se-lhe ũa sala de honra na Exposiçom Nacional de Belas Artes de Madrid. Nũa reportagem do ano 1979 em A Nossa Terra, Margarida Ledo recolhe estas opiniões dum homem de sólidas conviccões ideológicas e artísticas: Galeguizei-me de rapaz, porque eu estava na Argentina e toda a minha preocupaçom era a Galiza. Antes da guerra expujemos polas aldeias, ia a Vilagarcia, por aí adiante. Nom estava em nenhum partido político, era galeguista, ũa cousa mui bonita. Daquela éramos os de esquerda e os da direita, peró levávamo-nos bem todos; o entusiasmo definia todo. No movimento cultural participavam Seoane, Maside, Castelão, que como era deputado tinha que fazer intervir a parte oficial. Em Santiago ia-se fazer um Taller de Artes, nom queríamos academia, senom taller ; na Corunha um conservatório, e já se falava com a deputaçom para que houvesse 50 becas por ano. Eu fora a Ourense para que Risco mirasse o dos Estatutos. Depois veo a guerra. Levarom-me para ser interrogado com a desculpa dũa multa que nom pagara; saiu todo bem. Eu nom som o que se entende por um valente, peró também nom tenho medo. Arrefece-se-me a cabeça e nesses momentos som outro homem. Nom me sentia a gosto e no 37, com o pretexto de expor em Lisboa, fum alô. E já ali, como todos, ũa noite tomei um barco que ia para a Argentina. Em 1983 o Museo de Arte Español Contemporáneo dedicou-lhe ũa exposiçom antológica itinerante que se mostrou em Madrid e em várias cidades galegas. No catálogo publica-se ũa entrevista ao pintor na que este lhe di a José de Castro Arines: Cada vez tenho mais ânsia por retornar à nossa terra, para tomar força dela e manter-me dentro do possível em vivo. Quiçais magia, nom sei. Nunca pensei nisso. A magia, o sangue, o alento da terra, o ar... Além desta exposiçom do 83, Colmeiro tivo ũa ampla antológica na Bienal de Ponte-Vedra de 1987. Na que se fijo a começos do 99 em Vigo faltavam as pinturas depositadas no Museu de Ponte-Vedra que o pintor entregara pola bolsa de estudos concedida pola deputaçom no ano 1928. A primeira pintura exposta é de 1918, a última do 84. Em 1987 ganhou o Prémio das Artes da Junta da Galiza. Fontes: António Bonet Correa, Manuel Colmeiro; José Antom Castro, Colmeiro desde Colmeiro; Enciclopédia Galega, tomo VII, pág. 2 e ss.; Carme Vidal, em A Nossa Terra nº 872, (1/3/99), páginas 30 e 31. O RATO DA LIVRARIA
NOTÍCIAS SOBRE O DEBATE LINGUÍSTICO Onde se propom este novo debate? Este novo e esperançador desafio cobra vida nos meios de comunicaçom, em ambientes universitários e continua nas diferentes associações e colectivos de base. Em geral, os círculos intelectuais começam a ver com bons olhos a possibilidade de recuperar integralmente o idioma e mesmo admitem a adopçom das normas reintegracionistas. Mais precisamente, suponho conheceredes o encontro de escritores de Corcuviom, na Costa da Morte. Os dias 24 e 25 de Setembro do passado ano reuniu-se ali um numeroso grupo de escritoras e escritores galegos, de todas as idades e tendências intelectuais, artísticas e sócio-políticas. As jornadas, centradas na língua e literatura galegas, tiverom por título Transatlântico: Encontro no Finisterre. O assunto da língua obscureceu os outros, as tradições literárias, as preferências entre os clássicos e os diversos compromissos assumidos polos escritores. No encontro pairou o eco das intervenções nos dias prévios de Camilo Nogueira no Parlamento Europeu, quando pronunciou os seus discursos em galego-português. Seica o encontro catalisou um processo quase latente. Nom é casual o encontro ter sido convocado em Corcuviom. O alcaide, Fernando Rafael Mouço Lago, é do Bloco e goza de grande prestígio. A excepcional capacidade de gestom municipal levou-no a ser re-eleito ũa e outra vez, apesar dos esforços dos grandes partidos estatais, de muitos mais meios. O alcaide travou funda amizade com o inesquecível promotor dos Amigos do Idioma Galego, José B. Abraira Feijó, quando este viajou à Galiza acompanhando as cinzas de Castelão. Aliás, nesta área geográfica Cé, Fisterra, Corcuviom, Vimianço actuam muitos moços e moças com grande dinamismo no campo cultural. Uns, agrupados na associaçom Arre-Sentelha, publicam um boletim Expresso-m, redigido em norma reintegrada. Estes e outros integram o Batalhom Literário da Costa da Morte, conhecido em toda a Galiza polos seus indivíduos quanto polo labor colectivo. O título nom anunciava os resultados. Nom é? A priori o título fazia-o atraente e vagamente sugestivo. Nom levantava ansiedades. A listagem dos concorrentes ainda animava mais a prestar atençom. Concorriam perfis antitéticos, todas vinculadas ao idioma galego, que nos últimos tempos de claro clima de repressom selectiva era impensável achar reunidas num debate. Um dos relatores foi o académico Carlos Casares, presidente do Conselho da Cultura Galega e director da Editora Galáxia. Estavam também Marilar Aleixandre, professora da Universidade de Santiago e escritora de grande sucesso, nomeadamente no público moço; Suso de Toro, romancista e argumentista televisivo, colaborador de diversas revistas galegas e de âmbito estatal; a poeta e académica Luz Poço Garça; Maria José Queição; Luísa Castro e o dramaturgo, actor e director de teatro Roberto Vidal Bolanho, entre muitos outros de posições matizadas ou pouco antes declaradamente hostis à reintegraçom. Da parte abertamente reintegracionista havia muitos membros da AGAL, como Carlos Quiroga ou Elias Torres Feijó, professores moços da Universidade de Santiago, e o escritor Joam Guisam Seixas. E houvo concórdia além de clima cortês? Houvo acordos e vontade de acordar. Entre as conclusões da reuniom cumpre salientar o geral assentimento sobre a necessidade de melhorar a qualidade do galego literário, de achegar-se às outras modalidades do idioma (vivas em Portugal e nos restantes países lusófonos) e de aprofundar a difusom dos clássicos portugueses nos ambientes literários galegos. Contodo, o resultado mais visível no lugar foi a demonstraçom da perfeita convivência das várias tendências num diálogo aberto, fluido e esperançador. O que agora queremos saber é quais forom os ecos. As consequências forom imediatas, mostrando a sociedade estar madura. Certas estruturas políticas som as que estâm a resistir teimudamente. Os meios de comunicaçom, em maior ou menor medida, recolherom o resultado dos debates. Aliás, abrirom-se a colaborações de vários participantes. Só dous dias depois, a escritora viguesa Maria José Queição publicou em La Voz de Galicia, nas páginas de opiniom, um genial artigo titulado "O galego em Europa", no que manifesta total acordo com a atitude de Camilo Nogueira e defende a mudança de rumo para o reintegracionismo. Na manhã do 27 de Setembro, milhares de galegos ficarom de boca aberta ao folhearem o jornal, âmbito antes vedado a este tipo de opiniões. "Ao sairmos a Europa, por exemplo, e ter que empregar o idioma, nom temos mais remédio que situá-lo. Isto foi o que fijo o representante de Galiza no foro europeu, Camilo Nogueira. Tinha que optar por expressar-se em castelhano, a língua do Estado, ou ser fiel à língua e ao país que representa e expressar-se em galego culto, ou seja em português, o idioma reconhecido em Europa e no mundo", forom as palavras textuais da autora de Amântia, Amor de Tango e Recuperemos as mãos. Os mesmos critérios defendeu-nos dias mais tarde o 3 de Outubro o patriarca do galeguismo Isaque Diaz Pardo, com um artigo de firme defesa de Camilo Nogueira e da recuperaçom integral do galego vertebrado na sua raiz originária. A quarta-feira 6 de Outubro foi e será com certeza um dia histórico. Por vez primeira desde o início da censura em 1982, um artigo escrito com a ortografia galega publicou-se em La Voz de Galicia. O colaborador afortunado foi um professor novo do departamento de Filologia Galega da Universidade de Santiago, Elias Torres Feijó, que redigiu um artigo antológico por claro, directo e sincero, "O futuro do galego", no que analisa o fracasso da política linguística das instituições oficiais e dá a conhecer os posicionamentos reintegracionistas com máximo respeito polos interlocutores. "Nem a normalizaçom nem a normativizaçom linguística som ũa batalha de vencedores e vencidos: devem ser expressom dum processo de recuperaçom de identidades" afirma. A resposta foi imediata. Dous dias depois um companheiro do mesmo departamento, o professor Henrique Monteagudo, este do Instituto da Língua Galega (isolacionista), manifestou concordância com a atitude de Camilo Nogueira, mas ainda defendendo a correcçom e vigência da norma isolacionista. No entanto, o tom é conciliador: admite um retrocesso no uso do idioma, em parte devido à ineptitude da equipa de Fraga Iribarne, e mostra-se favorável ao diálogo: "Uns e outros temos que superar, en ben do noso idioma, do noso pobo e do noso país, divisions que case sempre son menos irreductibles do que poida semellar a primeira vista, deixar de obsesionarnos con metas últimas e mentalizarnos de que o importante nesta viaxe é a viaxe mesma". Desde esse momento praticamente todas as semanas aparecerom artigos a respeito do mesmo assunto, insertos nũa série chamada "Debate: a normativa do galego". Alguns de posicionamento moderado (José Ramom Pena, de Vigo; Marcos Valcárcel, de Ourense; ou a deputada do BNG Pilar Garcia Negro, da Corunha) e outros desde o reintegracionismo de máximos, todos animarom o diálogo expondo as suas particulares perspectivas. Destacam os contributos de Celso Álvarez Cáccamo, da Universidade da Corunha, com "O galego-português e a lógica social da escrita", e Joam Guisam Seixas, de Compostela, com "Propostas para um diálogo". A colaboraçom de Suso de Toro, coordenador do encontro de Corcuviom, publicou-se a terça-feira 19 de Outubro, e o seu conteúdo vai na linha defendida por Castelão: "O galego nom é um idioma em perigo de extinçom; quem viaje, se informe ou navegue na Rede sabe que é um idioma bem vivo que ainda que nasceu aqui já nom nos pertence a nós. Nem sequer aos vizinhos portugueses, tam propensos ao chovinismo como os espanhóis castelhanos. O galego como o castelhano floresce na América, no Brasil, e também na África da Angola e do Moçambique (e no magoado Timor, ainda que o ignoremos)". E logo nom houvo posicionamentos recalcitrantes? O posicionamento mais conservador foi o exposto novamente polo professor Jesus Alonso Montero, da Real Academia Galega e docente na Universidade de Santiago. No seu artigo defende a vigência da normativa isolacionista e critica abertamente o reintegracionismo, identificando-o como "o mellor aliado do monolinguismo castelán". E logo que falta para proclamar vitória? Que mudem as estruturas do poder antigaleguista que estâm a monopolizar zelosamente os recursos do estado autonómico e controlam mesmo os grandes grupos económicos privados. Em La Voz de Galicia a publicaçom desta série de artigos de debate sobre o futuro do idioma foi possível mercê da boa disposiçom do chefe da secçom de opiniom, o avezado jornalista Artur Lezcano, que em muitas colaborações tem manifestado seu apoio à normalizaçom do idioma, e mais concretamente, à reintegraçom. Infelizmente, quando o debate estava no seu ponto crítico, produziu-se na direcçom do jornal ũa viragem estratégica. Cabe imaginar que por conselho de alguém a empresa destinou Lezcano a outras tarefas, e o seu substituto eliminou rapidamente o debate, e toda publicaçom redigida na norma reintegrada ou que versasse sobre a possibilidade de reformar a norma isolacionista. Poderia pensar-se que tornam os tempos velhos. É, mas algo profundo já está presente para ficar connosco. Ao povo galego corresponde decidir. A luita prossegue com perseverança, cada dia com novos fôlegos.
JENARO MARINHAS A sua obra é um tesouro para toda a comunidade cultural galego-portuguesa Notícia do enterramento, o dia de Noite Boa (24 de dezembro de 1999) O reencontro das famílias reintegracionistas para tributar a derradeira homenagem de despedida ao Sr. Jenaro Marinhas celebrou-se num ambiente de máxima tristeza. O passamento do dramaturgo, membro de honra da Associaçom Galega da Língua (AGAL), reuniu no cemitério corunhês de Santo Amaro amplíssima representaçom do movimento reintegracionista, que nom tinha concorrido com tanta afluência a um acto público desde o 23 de Março de 1990, quando em Boisaca (Compostela) era enterrado o Prof. Dr. Ricardo Carvalho Calero. Jenaro Marinhas faleceu de 91 anos na sua morada da Praça de Ponte-Vedra na Corunha. O óbito produziu-se perto das sete da tarde do 23 de Dezembro, o que dificultou difundir a notícia na maioria das cidades e vilas galegas. A eficaz gestom de Alberte Ansede, presidente da Associaçom Sócio-pedagógica Galega (AS-PG), permitirom algum jornal incluir um informe especial o dia do enterramento. Assim, La Voz de Galicia dedica-lhe ũa página com informaçom da própria redacçom e colaborações do próprio Alberto Ansede e Henrique Rabunhal Corgo. Nesse jornal aparecerom as notas necrológicas da família, a do Bloco Nacionalista Galego e a das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal. Entre os concorrentes ao enterramento podemos citar muitas pessoas amigas do falecido, que acompanharom o seu sobrinho Paulo Gonçález Marinhas, ex-conselheiro da Junta da Galiza. Com o que fora secretário geral do Partido Nacionalista Galego (PNG) estiverom o senador Fernando G. Lage (PSOE), ex-presidente do governo galego, e os deputados Domingos Merino e Pilar Garcia Negro (BNG). Também os escritores concorrerom a Santo Amaro para despedir o que fora membro da Associaçom de Escritores em Língua Galega (AELG). Entre outros, estiverom Manuel Maria, Marica Campo, Teresa Campo (directora na encenaçom de Ramo Cativo de Jenaro Marinhas), Luísa Vilalta, Pilar Palharês, Manuel Lourenço (Prémio Estatal de Dramaturgia e recente Prémio Rafael Dieste na modalidade de teatro), Joam Guisam Seixas (autor da A origem certa do Farol de Alexandria), Joel R. Gômez... Nom faltou representaçom da AGAL (encabeçada pola sua presidente Maria do Carmo Henríquez Salido) e da AS-PG, assim como das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal (representadas polo seu presidente, o advogado José Luís Fontenla, e o secretário, Ângelo Cristóvão). Pola Fundaçom Artábria do Ferrol estivo seu porta-voz Maurício Castro López. Vinculados à Universidade da Corunha estavam Carlos Paulo Martínez Pereiro, Francisco Salinas Portugal, Elvira Souto (ex-secretária da AGAL) e Francisco Pilhado Maior (presidente da Editora Laoiovento). No cemitério de Santo Amaro, bem pertinho da porta da entrada, ficarom os restos do nosso Jenaro Marinhas del Valle, a compartir morada eterna com os de Eduardo Pondal, Manuel Murguia e Manuel Curros Henríquez. Breve informe biográfico de Jenaro Marinhas O 25 de Novembro de 1908 nasceu Jenaro Marinhas na Corunha, cidade na que realizou a inicial formaçom académica com colegas que muitos anos depois seriam destacadas personalidades da cultura galega: o pintor Urbano Lugris, o poeta exilado Emílio Pita ou o polifacético pintor-escritor-editor Luís Seoane. O Marinhas já vinha dũa família culta achegada ao galeguismo desde as origens deste no século XIX. O próprio Jenaro, em entrevista realizada polos seus amigos, os escritores corunheses Henrique Rabunhal e José Maria Monterroso Devesa, comenta-nos o que segue: "Meu pai criou-se entre livros porque meu avô, que também era homem dado às letras, tinha ũa linda biblioteca. Eu conseguim furtar-lhe alguns livros, entre eles ũa primeira ediçom da Historia de Galicia de Murguia, onde na listagem dos primeiros assinantes figura meu avô com o número trinta e tantos". O contacto com o galeguismo é mesmo anterior à fundaçom das Irmandades da Fala (1916). Como se desprende da leitura do fragmento anterior a carta do avô, o pai de Jenaro estava relacionado com os tertulianos da Cova Céltica e levava estreita amizade com Carré Aldão, Tettamancy, Lugris Freire e os irmãos Vaamonde Lores. "Ainda que mais velho que eles, mantivo estreita relaçom também com António e Ramom Vilar Ponte", afirma na citada entrevista (resgatada no número 18 da revista Agália, 1989) o Jenaro Marinhas referindo-se ao pai. Na Universidade de Compostela iniciou uns estudos de Filosofia que nom chegaria a finalizar. Reorientado o rumo da sua formaçom académica, diplomou-se nũa especialidade hoje equivalente à de Ciências Empresariais, e depois dedicou-se às tarefas de contável e guardador de livros nũa empresa corunhesa. "Como Bernardo Soares, mas sem o talento que a ele lhe emprestou Fernando Pessoa. Creio que todos os versos, contos e peças dialogadas por mim escritas nom som outra cousa que o meu Livro do Desassossego". Desde a infância estivo unido ao ambiente teatral da capital. No começo dos vinte, com pouco mais de doze anos, assistia às "veladas" organizadas pola local Irmandade da Fala. Durante a II República (1931-1936), com Alfredo Canalejo e Álvaro Zebreiro foi fundador e activo colaborador do jornal La Draga, que combatia a política de Casares Quiroga por desviar-se dos princípios autonomistas com o objectivo de capitalizar o poder. Em 1933, com o poeta Emílio Pita, que chegara de Buenos Aires, participa na fundaçom das Mocidades Galeguistas. Reunia-se com moços e moças que assistiam às aulas ministradas polo também editor Ângelo Casal e por consequência imediata estes novos simpatizantes do galeguismo político começarom a concorrer às actividades organizadas no local da Irmandade. Nos primeiros meses de 1936 tomou parte activa em diversos actos de propaganda favorável ao Estatuto de Autonomia da Galiza, plebiscitado em Junho desse mesmo ano. Durante o período da pós-guerra participou em Vigo no que ele mesmo define como "juntança de vencidos". A reuniom celebrou-se na morada de Francisco Fernândez del Riego, actual Presidente da Real Academia Galega, com o intuito de reorientar a resistência do galeguismo. Ali coincidiu, entre outros, com Ramom Pinheiro e Ângelo Fole. Passados já mais de quarenta anos, o protagonista lembra deste jeito a jornada: "Fomo-nos deslocando a Samil em pequenos grupos e por diferentes caminhos para nom chamar a atençom da vigilância fascista, que era grande e toda reuniom perigosa. Ũa vez juntos em torno dũa mesa analisou-se a situaçom política e as possibilidades de actuaçom concordando em que a mais factível residia na cultural. Lembro que o optimismo e entusiasmo de Fernândez del Riego forom os grandes animadores daquela juntança de vencidos". Aceitando ũa proposta de Rafael Dieste, a Real Academia Galega pediu a Jenaro Marinhas ingressar na instituiçom, o que aconteceu trás a leitura do correspondente discurso em 1978. "Nom tardei a dar-me conta de ter cometido um grande erro", afirma Jenaro Marinhas avaliando o período de permanência na RAG. A sua decidida atitude crítica e a falta de compromisso dos académicos com o uso constante do idioma galego som as causas de renunciar à cadeira em 1990. Seis anos depois de ter sido eleito académico, em 1984, foi também nomeado Membro de Honra da Associaçom Galega da Língua (AGAL) com Ricardo Carvalho Calero, Celso Cunha e Manuel Rodrigues Lapa. A respeito da defesa do idioma, Jenaro Marinhas sempre foi dũa extraordinária contundência. O compromisso com a língua, com a naçom galega e, dentro desta, com as camadas mais desfavorecidas, causou-lhe a Jenaro Marinhas um injusto e obscuro ostracismo. As suas palavras deixam impertinente qualquer comentário: "A minha vinculaçom nom é dos últimos anos, é de sempre, porque eu sempre tivem por árbitro das minhas dúvidas linguísticas o português clássico. Os clássicos portugueses forom os mestres que me leccionarom para escrever em galego; quem os leia com atençom comprovará que som menos lusos do que galegos. Camões é um poeta tam galego como possam sê-lo Anhom, Curros ou Rosalia. E nom digamos Pondal que tam bem o conhecia..." "Os galegos nom devemos considerar o idioma português como algo que nom nos pertence em grandíssima parte desde que contribuímos à sua formaçom em igual medida os do Minho para Norte que os do Minho para Sul e isto deve ser motivo de orgulho nacional." "Nom se me oculta que aderir ao reintegracionismo contribui a encontrar-se com muitas portas fechadas, mas nom tenciono aldrabar a nenhũa e como nunca pretendim alcançar sinecura de poderes públicos nem subsídios de condessa ricalhoa, sou livre de escrever a ditado exclusivo do integral nacionalismo galego que professo". Ũa obra portugalega como a de Carvalho Calero e Rodrigues Lapa A obra de Marinhas vem marcada pola exagerada humildade do autor, que nunca a creu meritória. Tal autocrítica é também responsável de muitos dos seus textos nom serem conhecidos entre o grande público. As suas primeiras obras literárias forom publicadas nos órgãos de expressom (jornais e revistas) da comunidade galega exilada em terras bonaerenses. Desde 1952 publicou relatos curtos e dramas em Galáxia. Concretamente A revolta, que se editou em 1965, fora apresentada por amigos do autor sem este sabê-lo ao concurso de Teatro Galego Castelão, obtendo logo o primeiro prémio. Esta notoriedade possibilitou que a peça fosse encenada em muitas ocasiões desde a sua estreia em Genebra no mês de Maio de 1970. Neste mesmo âmbito da arte dramática, Marinhas é um relevante teórico da técnica e crítica teatral. Os seus ensaios estâm esparsos nos diferentes números da revista Agália, assim como nos livros de Actas dos Congressos Internacionais da Língua Galego-portuguesa na Galiza. Aliás, este mesmo assunto centrou o discurso de ingresso na RAG em 1978; a exposiçom teórica intitula-se "A importância do público na revelaçom teatral". Quando os amigos José Maria Monterroso e Henrique Rabunhal comentam o processo de desdramatizaçom do seu teatro, Marinhas responde com a sua característica modéstia: "... esse defeito abrange toda a minha obra porque foi escrita desde fora do teatro e sem um estudo acabado do que o teatro era ou deveria ser. Nestes diálogos mais ou menos dramáticos que escrevim, nom dialogo com o público, fago-o comigo mesmo, o que está mais próximo da poesia lírica que da arte teatral. Isto obedece a duas causas, ao desconhecimento da arte teatral e ao ambiente de sequestro intelectual que se vivia, de marcada opressom franquista. Como nom era permitido comunicarmo-nos com os demais tendíamos a fazê-lo com nós mesmos. Em resumo, nom era época para fazer teatro, arte que requer como nenhũa outra de completa liberdade" Embora seja conhecido fundamentalmente como dramaturgo, Jenaro Marinhas tem publicado inúmeros relatos na revista Grial. Em 1987 a Associaçom Galega da Língua publicou ũa colectânea destes relatos com o título de A vida escura. É ũa obra de personagem colectiva que dá voz aos grupos sociais mais esmagados e desfavorecidos que se nos amostra desde a perspectiva de um narrador realista, de inspiraçom popular e que confessa seguir os princípios técnicos formulados por Rafael Dieste em Dos arquivos do trasno. Reflexom final O intuito desta exposiçom foi contribuir a dar a conhecer um autor galego-português admirado dũa minoria que tivo o privilégio de conhecê-lo, e de ter à mão a sua obra, mas desconhecido para o grande público. Galegos e portugueses temos perante nós o desafio e mesmo a obriga moral de convocar algũas jornadas para o estudo da obra de alguém que consagrou a vida à unidade dos nossos respectivos povos, servindo de laço de uniom entre o galeguismo do século XIX, o do XX e o do XXI. Com certeza muita obra permanece inédita poesia, teatro, narrativa e teoria literária aguardando ver a luz com os critérios com que esperançado os criara o autor. Ũa réstia de luz para a obra imortal do Jenaro Marinhas!! Bernardo PENABADE Burela (Galiza)
Viajando polo dicionário... (Colaboraçom de Manuel Iglésias Iglésias)
Eis algũas palavras achadas folheando o dicionário que chamarom a minha atençom: Abagalhar, v.i. Minguar, diminuir ũa cousa. abagalhou-lhe a roupa ao neno Abaganhada, s.f. Folgazã, mulher que finge pretextos para nom trabalhar. Abantujar, v.i. Enfermar um neno sobre o que passou ũa mulher quando tinha a menstruaçom.(abantujo: nome da enfermidade) Abarbeitar, v.i. Fecundar o macho à fémea. Abatugar, v. tr. Regar as plantas botando-lhes a água com as mãos desde o cubo ou do depósito onde se tem. Abatujar,v.tr. Agitar a água com as mãos ou os pés, sobretodo o que nom sabe nadar ou nom quere afogar. Abriçar-se, v.i. Fender-se um copo ou um pucheiro, mas sem partir de todo, de jeito que pode seguir utilizando-se. Baloufar, v.i. Cair ou escorregar dando com as nádegas contra o chão. Esbagajado, adx. 1) Que anda demasiado decotado ou despido. 2) Impudico. Esgandalhar, v.tr. Estragar a roupa que se veste, por falta de cuidado. Esgaldrapado, adx. 1) Desleixado, que é descuidado no vestir. 2) Que leva a roupa rachada, aberta ou desabotoada. Esgalmir, v.tr. Lamber e relamber. v.r. Relamber-se, degorar-se. Página dos assistentes às aulas de galego DE LANDEIRA A BUENOS AIRES Nũa esquina de Buenos Aires topei no café RIO TAMBRE. O nome acordou-me um lugar da Galiza celta, onde o rio Tâmaris era o limiar da Trás-tâmara, a comarca silvática e despovoada daquela conhecida com "país dos mortos".Daniel está trás o mostrador, alto e robusto, de mirada atenta e vigiante a observar o movimento do bar. Conversando com ele, convenço-me de que a sua expressom, como reservada, é somente a coiraça para proteger um carácter amável e disposto a parola. Nasceu em Landeira, concelho de Negreira a Nigrária romana , perto da presa que retém as águas do rio que fora fronteira natural para as tribos celtas. Morou ali até os dezassete anos junto da mai e da irmã. Um dia decidiu partir-se porque sentira que além-mar o aguardava o seu porvir. Um dia de julho do ano mil novecentos e cinquenta e um, deu começo em Buenos Aires a nova vida, marcado polo encontro com seu pai, que ainda nom conhecia. As cousas que se confiarom ajudarom a iniciar a relaçom de mútuo respeito. O pai trabalhava em Saúde Pública e Daniel escolheu o rumo da gastronomia, com os primeiros passos na confeitaria Boston, na rua Florida. Em 1962, em Juan B. Alberdi e avenida La Plata, abriu o bar ao que lhe pujo o nome que motiva a nota, e que me fijo entrar a perguntar. O homem, que conserva a honradez galega, foi alinhavando lembranças. Falou na represa que daquela estavam a construir quando quijo provar fortuna na outra beira além-mar. Lembrou o ruído da dinamita que no meio-dia lhe dava a sinal de suspender o labor do campo e ir à casa jantar. Daniel já cruzou o Atlântico quatro vezes para fruir do verdor incomparável, das rias, do bom vinho galego e quiçais mitigar a morrinha. A mulher é argentina e agora a vida decorre-lhe nesta terra, que adoptou com própria. É seu espírito que viaja cada vez que quer. HELENA CAROLINA
A INÉRCIA E OS ESPECIALISTAS por Isaque Diaz Pardo (tomado de La Voz de Galicia, 22-11-1999) Um desses homens sabidos acaba de afirmar que há mais igualdade social em Galiza que no resto da Espanha, o que é certo, pois ao passo que imos, todos seremos da classe assalariada trabalhando em empresas propriedade de gente que está fora da nossa terra. Quem duvide desta afirmaçom pesimista pode consultar as tábuas das mais importantes empresas galegas participadas por capital estrangeiro, no livro de Albino Prada Branco Economia de Galicia, publicado por Xerais há poucos meses. Albino Prada é professor de Economia Aplicada na Universidade de Vigo. Eu pediria-lhe que com o mesmo rigor amplia-se a sua pescuda para nos informar sobre empresas que trabalham na Galiza propriedade de indivíduos ou sociedades de fora da nossa terra em Espanha, e liquidam os seus tributos directos e indirectos onde radicam o controle, o que, no meu limitado conhecimento, me parece o desequilíbrio mais importante que padece a nossa economia financeira. Quem nom falam destas cousas estâm a nos dizer, quase sempre em castelhano, que a economia vai mui bem, que se estâm acadando níveis de emprego que jamais conhecimos, o que também é certo, peró nom é menos certo que nisso de criar postos de trabalho os romanos eram já mestres. Sem ir mais longe nas Médulas de Caruzedo empregarom 60.000 trabalhadores, possivelmente escravos pois dim que nom se fiavam dos galecos. Para mim este é o grande problema da Galiza e nom lhe podemos botar toda a culpa a quem nos administra e lhe dá emprego aos quartos que som de todos, se bem há muita tolerância com os interesses do nacionalismo mesetário. Mas, em geral, a maioria toleramos esta situaçom, ainda dormidos na inércia dũa história grave e pesada que acelerarom os 40 anos do franquismo. ũa das cousas nas que pujo muito empenho o regime passado foi em evitar os estudos interdisciplinares, o que se lhe permitiu a Madrid. Galiza nom tivo direito a criar empreendimentos inter-áreas. Ficou proibido sobretodo que se estudasse economia e política, como se estas nom fossem parte da cultura, da civilizaçom dos povos. Alguns estudos de certa história permitiam-se, mas os da história que estávamos vivendo nos últimos setenta anos eram proibidos e perseguidos. O único que cabia no regime anterior eram certos estudos especializados, a formaçom de especialistas em determinadas matérias. Esse é um problema que continua dominando. Os institutos de cultura dim que eles nom se meterâm em política o que fai felizes aos que mandam . E em geral isto é o que está acontecendo com os escritores e os filólogos, que nisso da língua rematarom crendo-se o embigo do mundo, cuidando que o problema da Galiza o tenhem nas mãos, sem precatar-se que os poderes estabelecidos, com o remamente do anterior, estâm mui conformes com essa atitude: que falem galego, como se querem criar ũa faculdade de sânscrito ou pérsico com tal de que o governo dos negócios, mais que o da economia, fique nas suas mãos. No entanto, os membros dos institutos académicos falam só da sua especializaçom, do grande saber que nom se lhes pode negar, ainda que nom mostrarom respeito polos antecedentes, que derom o melhor das suas vidas por reivindicar os direitos da Galiza. A Academia Galega que num princípio, com o espírito que a criou, ia ser menos especializada do que se veo convertendo, irrespeitosa até este ano com o seu primeiro presidente , é um instituto no que se integram os meus melhores e leais amigos, e eu tenho um grande respeito polos saberes de cada um. Mas isso de que som intocáveis e únicos no saber da língua, e portanto podem ditar, como um poder hierárquico que nos recorda tempos passados, disso nada. Quem legitima a Academia para se considerar intocável? Para desdramatizar esta situaçom, recordo que polos últimos anos do franquismo celebrou-se na Corunha um encontro para discutir o problema da língua, cuido que organizado polo Facho. Estavam nele vários académicos da Galega e também "lusistas", e quando estes pronunciarom a palavra orçamentos as gargalhadas dos académicos fijerom época. Eu tinha ao meu lado o meu dilecto amigo Marino Dónega que se escandalizou desses tolos lusistas, e eu também nom entendim do que se tratava. Depois soubem que a palavra orçamento era galega e que se conservou em Portugal, como tantas cousas que deixamos ali, por nom saber, ou porque os mesetários nom nos deixavam guardar o nosso, e assim nom fomos capazes de guardar nem ũa má cópia desse monumento do espírito que nos pertence, que som os Cancioneiros, e tiverom que ser os portugueses e os italianos os que o conservassem. Hoje o substantivo orçamento entrou facilmente no galego e hai algum jornalista que o está a meter no castelhano. Nada estaria mais longe de minha intençom que desacreditar os académicos; isso seria injusto. Só tentar rebaixar-lhes um pouco essa fachenda de ser académicos, e pedir-lhes que aceitem o diálogo cordial e a total liberdade para considerar o problema da língua, sem desacreditar depreciativamente de portuguesismo o que nom vai de acordo com a sua normativa actual. Ao mesmo tempo que recordar-lhes que o movimento intelectual das vanguardas fijo-se contra as Academias, e assim pudo progressar o pensamento no presente século.
UGIO NOVONEIRA O mesmo dia em que se lhe ia render homenagem pondo-lhe o seu nome a ũa rua de Compostela, falecia nessa cidade Ugio Novoneira (Uxio Novoneyra), poeta e presidente da Associaçom de Escritores em Língua Galega. Filho de lavradores, nascera em 1930 em Parada do Courel, na montanha lucense. Novoneira era um poeta courelão, mas também poeta de Compostela, onde se estabelecera nos primeiros anos dos oitenta, porque foi nesta vila onde, em 1953, se produziu nele a revoluçom da língua, a tomada de consciência de que a Galiza era a pátria e de que a pátria falava em galego. José Lois Garcia di-nos "A singular personalidade e obra de Ugio Novoneira deixa um enorme valeiro na poesia galega, bastante difícil de cobrir..." "Ugio Novoneira amou profundamente a Galiza porque a conhecia fundamente. Ele foi o eco ressoante da nossa te que melhor soubo falar a linguagem metafórica com que nos fala o nosso próprio microcosmos. Cada cousa observada por Ugio Novoneira no seu Courel natal transferiu-lhe exclusividade à sua mensagem, nom para que tivesse a sua poesia um sentido netamente bucólico ou panteísta, dous conceitos nada observáveis na obra novoneirana. Mui poucas vezes topamos a voz da terra erigir-se com tanta força e liberdade na obra dum poeta galego como na da Ugio Novoneira." "Ele foi o poeta que sentiu e conheceu o seu meio e soubo debruçar-se com entrega total em cada um desses minúsculos espaços onde as faias, as uzeiras, os castinheiros, os surpreendentes cumes e os regatos codificarom no poeta os seus ritmos e os seus mistérios, erigindo-o como custódio desses dons que a própria terra concede." O 31 de outubro, às três da tarde, o cadaleito do poeta caixa sem sinal religioso nenhum, feita de madeira de faia, árvore da devesa da Roqueira deixou o Panteon de Galegos Ilustres em Sam Domingos de Bonaval a ombreiros do filho Artur, dos poetas Manuel Maria, Bernardino Granha e Cesáreo Iglésias, do professor e filósofo Hermínio Barreiro, do activista Galim e do deputado nacionalista José Manuel Beiras, e foi levado para Lugo a repousar no cemitério de Sam Froilam no entanto que a família arranja um espaço na velha capela dos seus devanceiros em Parada do Courel. Manuel Maria, amigo íntimo do defunto, na despedida em Lugo expressou que "Ugio junto do Cunha Novas foi um dos primeiros que na pós-guerra se precatou de que o fundamental que temos os galegos é a língua, que nos diferencia do resto dos povos e da que somos depositários." O RATO DA LIVRARIA
ANTÓNIO FRÁGUAS FRÁGUAS Morreu na sexta feira 5 de novembro às 9,30 da manhã no Hospital Clínico de Santiago, onde fora ingressado na quarta trás sofrer um infarto de miocárdio. Nascido um 28 de dezembro dum dos primeiros anos do século XX, em Loureiro de Cotobade, foi, além de escritor fecundo, um dos maiores folcloristas galegos, se nom o maior. Dele dixo Isaque Diaz Pardo (sob o título "Santo Antom Fráguas", em O Correio Galego do 6 de novembro) estas palavras que transcrevemos na nossa norma: "Fráguas era um homem admirado como sábio e respeitado por todos, polos que pensavam em Galiza como ele a queria, e os que nom pensavam como ele. Nom distinguia ninguém. Todos eram os seus amigos. A sua teima era Galiza, e por querê-la melhor do que era também padeceu a história. Ũa história grotesca que nom lhe contava a ninguém, nem queria que se contasse, e que se a conhecemos é porque a contarom quem forom testemunhas, e que nalgum momento alguém a vai contar. Quando se lhe forçava a perguntas, quando se via cercado no seu silêncio rematava dizendo que se o tinham tratado mal alá eles, pois ele continuava a pensar como sempre pensou. Foi membro do Partido Galeguista, estivo na fundaçom do velho Seminário de Estudos Galegos e era vice-presidente do Conselho do novo Seminário, eleito desde a primeira assembleia. Como director do Museu Municipal de Santiago foi um dos que facilitou a sua transformaçom no actual Museu do Povo Galego. Os seus discípulos querem-lhe tanto que muitos o chamavam Santo Antom Fráguas." Importa o folclore? Damo-lo por consabido,mas a transubstanciaçom dele operada por Rosalia nos Cantares afasta-nos dũa cabal consciência da sua riqueza, valor e excelência. Honramos aqui o Fráguas polo que foi e polo que fijo ementando o poema sobre o lobisomem recolhido por ele na aldeia natal. Muitas vezes nos debruçamos nele, pasmos da sua selvagem fundura e riqueza psicológica, difícil de exaurir. Muito eu chorei o domingo à tarde. Que venha Lourenço, que diga a verdade. Que diga a verdade, peró com cautela: Tua nai é bruxa, tenho medo dela. Tenho medo dela porque ela me come; tua nai é bruxa, teu pai lobisomem. É sabido Lourenço ser nome folclórico do sol, talvez de cunho apolíneo: Laurentius é Apolo. A luz do sol é sinal corriqueiro da luz da consciência. O choro do princípio parece aludir ao trauma natal, sublinhado com o primeiro dia da semana, da vida. Vemos depois o tema popular dos perigos da verdade, aqui aceita, mas com respeito :peró com cautela. Nesses estádios primordiais as imagens parentais emergem parodicamente só no seu aspecto terrível. A imago materna terrível, quanto que feminina, subtrai desta condiçom o seu valor mítico essencial: o amor. A bruxa é desamor. A imago paterna terrível, quanto que masculina, brande a condiçom mítica essencial, a força, com sentido destrutivo. O importante é que toda esta análise, irrefreável, certa ou nom, com seu pedantismo nom chega a enervar a força que sentimos ao ouvir os versos. NOTICIAS CONVOCATÓRIA A PROL DA LÍNGUA Nũa concorrida convocatória da FER (Federaçom Estudantil Revolucionária) assistirom, em Compostela, num mesmo acto, representantes das distintas tendências linguísticas.O presidente do Conselho da Cultura Galega, Carlos Casares, emprazou à Academia para que assuma o debate da reforma normativa. Casares reiterou o expressado no foro de Corcuviom a necessidade de reconhecer oficialmente formas como "nh", "lh" ou "j", mostrando-se a favor dum achegamento ortográfico ao português. O Linguista Henrique Monteagudo, professor de Filologia Galega na Universidade de Compostela e defensor da normativa do ILG (Instituto da Língua Galega) destacou a necessidade de ganhar galegos-falantes e deixou sobre a mesa o perigo do custo que o conflito normativo pode acarrear nesse sentido. Nom entanto afirmou: "...que a norma da AGAL seja a única de referência a que sigamos aturando diversas normas...". Elvira Souto, partidária das teses independentistas, valorou o feito de abrir novamente o debate "que até agora sempre se celebrou em termos emocionais e agora está-se a dar com argumentos linguísticos e filológicos". Favorável ao acordo fijo um chamamento a que persoeiros da literatura e a política se manifestassem a favor dum encontro normativo. Elias Torres, professor da Universidade de Santiago, afirmou que cada vez som mais os que se somam ao movimento reintegracionista e mostrou a urgência de recuperar a identidade da língua no reintegracionismo e reclamou "que remate a repressom contra os que nom usam a norma oficial", em especial no mundo editorial. Paula Castro em "A Nosa Terra", número 907, 4 Novembro 1999, pág. 29
III ENCONTROS DE NORMALIZAÇOM LINGUÍSTICA Os presidentes das câmaras municipais de Compostela, Ourense e Ponte-Vedra: Sânchez Bugalho do PSdeG, Manuel Cabeças do PdeG e Fernândez Flores do BNG, participarom aos III Encontros de Normalizaçom organizados polo Conselho da Cultura em Santiago de Compostela os dias 28 e 29 de Outubro. O vereador, Manuel Portas do BNG em nome do Concelho de Santiago propujo que as sete grandes cidades trabalhassem unidas a prol da galeguizaçom.
PUBLICAÇÕES À VENDA (em Chacabuco 955, nos dias e horas de aulas) Revistas AGÁLIA, números do 5 ao 19, c/ũa $10,00 Revistas AGÁLIA, números do 20 ao 24, c/ũa $11,00 Revistas AGÁLIA, números 26, 27, 28, 30, 33 e 35, c/ũa $12,00 Revistas AGÁLIA, números 25 e 29, c/a $15,00 Quadros de Gramática Galega (Higino Martínez Estêvez, Ediçom de Amigos do Idioma Galego) $10,00 Guia Prático de Verbos Galegos Conjugados (AGAL) $12,00 Prontuário Ortográfico Galego (AGAL) $23,00 História da Galiza (em banda desenhada) $7,00 Quatro estudos de história de Galiza $10,00 O mundo narrativo de Álvaro Cunqueiro (Moram Fraga) $15,00 Lua de Além-Mar e Rio de Sono e Tempo (Guerra da Cal) $23,00 LOCAIS DE VENDA DOS "QUADROS DE GRAMÁTICA GALEGA" Livraria do Centro Galego Av. Belgrano e Pasco - Buenos Aires Livraria Rodríguez Sarmiento 835 - Buenos Aires Livraria "EL ATENEO" Florida 349 - Buenos Aires Livraria "Del Sur " Carlos Calvo 4242 - Buenos Aires Livraria "Tomás Pardo" Maipu 618 - Buenos Aires
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