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CONTEÚDO Ũa olhada atrás para retomar o caminho O primeiro Congresso da Emigraçom Galega De onomástica galaico-argentina (Monterroso-Devesa) Página dos concorrentes às aulas de galego Viajando polo dicionário (Manuel Iglésias) O nosso amigo José Gonçález Varela Primeira descida em barca de lona polas corredoiras do Minho(Alberto Gonçalez Varela) A expropiaçom dos bens de Castelão
ŨA OLHADA ATRÁS PARA RETOMAR O CAMINHO Que dúvida cabe de que a língua é a nossa identidade? Grande criaçom colectiva, une-nos no espaço e através do tempo. Se estamos a ler estas linhas, decerto somos daqueles que nom concedem graciosamente a perda da língua, porque simplesmente sabemos que é o único modo digno de ser e apresentar-se no mundo. Lá, no ano 1982, éramos só um grupo informal de amigos congregados arredor das aulas de galego reintegrado. José Bieito Abraira aguilhoava e logrou que catalisássemos as nossas ideias e espírito galego no manifesto "A ÚNICA LÍNGUA PRÓPRIA DOS GALEGOS É O IDIOMA GALEGO", assinado por profissionais galeguistas da Argentina, que foi antecedente dos fitos reintegracionistas havidos na Terra nos anos seguintes, nomeadamente dos congressos reintegracionistas organizados pola AGAL. Convidavam a "comprometer-se à tarefa de fazer do galego a língua mais criativa do século XX e do vindoiro." Sem esquecer o labor ininterrupto das aulas (vâm vinte e cinco anos), buscamos suscitar ecos mais notórios ou de eficácia mais maciça, qual os dous simpósios internacionais da língua galego-portuguesa de 1983 e 1985. Certo que contávamos com a entusiasta ajuda da AGAL. Assim pudemos contar com a presença do Dr. Ricardo Carvalho Calero, facilitada pola entom presidente da AGAL, Dra. Maria do Carmo Henríquez Salido. No decurso do tempo sofremos os mesmos avatares de toda a sociedade galega no que foca à língua. Recebidos e expulsos alternativamente das instituições da colectividade nesta parte da diáspora, agradecemos e nom fazemos cargos. Sabemos do amor dos que nos acovilharom, que fâm parte de nós, e compreendemos os que deverom ceder às pressões económicas provenientes do corpo estranho instalado no governo galego. Sabemos ao cabo do respeito profundo professado por todos à identidade. Só os imediatamente atingidos por instruções partidárias se moverom contra nós. Certamente esta situaçom nom se compara com a tormentosa a desenvolver-se no centro do mundo galego. Essa história é bem conhecida de todos os involucrados na luita galega. O que talvez seja pouco percebido é que esta parte da diáspora tem crescido como supomos tem crescido toda a sociedade galega a favor das resistências. Paradoxo aparente, que nom é tal para os experientes. Os cursos nasceram por puro prazer, por hedonismo cultural, por acalmar inquietudes de identidade que na distância podiam escusar as asperezas do combate social e político no vórtice do estado espanhol. Os inesperados ecos, positivos e adversos, perfilarom-nos apesar de nós, levarom-nos por onde nom pensávamos ir, obrigarom-nos suavemente a perseverar, aprofundar, perseguir a eficácia antes de mais nada. Consequentemente, organizamo-nos juridicamente, distribuímos cargas, actualizamo-nos tecnicamente e, sobretodo, tentamos nom perder o contacto com o prazer de criar, critério certo de bom rumo. Hoje sentimos ser a única entidade que na Argentina, mercê da sua independência e liberdade, defende a língua plena, quer dizer, a língua reintegrada, e portanto, a dignidade e o futuro da pátria galega. Somos ũa gota no mar, mas a favor dos meios modernos podemos chegar
longe. Se atinamos lucidamente, se usamos da força suprema dos débeis, que é a uniom e
a sabedoria, podemos incidir criticamente na augusta realidade dos que detentam e abusam
do poder. Temos esperança, que nom é pouco. O PRIMEIRO CONGRESSO DA EMIGRAÇOM GALEGA Antecedentes Organizaçom e propósitos E acabava expressando: "O Congresso deverá recolher ideias e arelas que andam no ar, plasmando-as em fórmulas tam concretas quanto for possível, para que a emigraçom tenha um norte na sua conduta no porvir. A Comissom Organizadora convida a todas as sociedades de emigrados, a todas as comunidades galegas da América, a todos os grupos galegos, a enviar os seus representantes a este Congresso e que tragam os seus pontos de vista para que num cordial intercâmbio entre todos possamos chegar a estabelecer democraticamente um programa de ideias e de acçom para os galegos que moramos fora da Terra..." "A emigraçom galega tem chegado na sua evoluçom a um momento em que precisa tomar consciência de si mesma e autodeterminar o seu rumo. Nom pode continuar desorientada, desconcertada; cumpre articular esforços para obter destes o máximo rendimento; cumpre saber o que devemos buscar e como. Temos a esperança de que este Primeiro Congresso da Emigraçom Galega representará um passo importante na empresa ineludível, cada vez mais urgente, da estruturaçom da Galiza emigrada." O temário, amplo, compreendia o estudo do passado, presente e futuro da emigraçom galega e procurava dar com as soluções para os problemas que afectavam os emigrados.
Ampla concorrência e eco local A prensa local, de todo o espectro de tendências, deu amplo eco dele antes, durante e depois de celebrado. La Prensa, La Nación, La Razón, o semanário socialista La Vanguardia, publicavam artigos e resenhas desde o 7 de julho até o 2 de agosto.
Sessom Preparatória Ao cabo autorizou-se à Mesa a designar sete comissões, ũa para estudo das credenciais e seis para debater as propostas recebidas e emitir os correspondentes ditames a ser tratados polo plenário de delegados. Levantou-se a sessom no primeiro minuto do dia 25 de julho, quinta feira, Dia da Galiza de 1956. Sessom Inaugural Trabalhos e exposições Os trabalhos apresentados por instituições e indivíduos de diversos pontos da América e da Galiza forom agrupados nas comissões seguintes: B) "Passado da emigraçom galega" (6 trabalhos), C) "Presente da emigraçom galega" (9), D) "O problema do emigrado galego" (11), E) "A emigraçom galega na vida social. As entidades mutualistas, máxima criaçom da emigraçom galega" (11),º F) "A emigraçom galega na vida económica" (7), e G) "A emigraçom galega e a cultura" (21). Durante os dias 25, 26, 27 e 28 de julho, as 65 propostas forom analisadas polas referidas comissões, que se reunirom nas sedes dos Centros Ourensano, Lucense, Pontevedrês, Betanços, ABC de Corcuviom e na Federaçom de Sociedades Galegas. Encerramento Os ditames forom aprovados em conjunto. Havia muita expectativa polos resultados da comissom G, sobre emigraçom e cultura. Esta comissom decidira aceitar a todos os trabalhos, mas tomando "por base para as conclusões que submetia ao plenário do Congresso o trabalho nº 12, por abranger a problemática da cultura galega do jeito mais integral". Esse ditame estabelece que a Galiza é um povo com cultura própria e que "o instrumento essencial dessa cultura é oidioma galego, que como tal cumpre manter e desenvolver." A proposiçom nº 12 chamava-se "A defesa do idioma galego, vencelho espiritual de todos os galegos" e vinha assinada polos senhores Ramom Cabanilhas, Ramom Outeiro Pedraio, Joam Rof Carvalho, Domingos Garcia Sabell, Ricardo Carvalho Calero, Celestino F. da Veiga (de la Vega), Francisco Fernândez do Rego (del Riego), Jaime Ilha Couto e Ramom Pinheiro. Actos paralelos ao Congresso Falarom nessas palestras Emílio Gonçález López, historiador e catedrático em Nova Iorque; Gerardo Álvarez Galego, irmão político de Xavier Bóveda, advogado e jornalista na Havana; Luís Tovio Fernândez, intelectual que desenvolvia a sua actividade no Montevideu; José Velo Mosqueira, educador em Caracas; Ramom Suárez Picalho, do Conselho da Galiza, advogado e jornalista residente em Santiago de Chile; Marcial Fernândez, escritor e jornalista no México; e Rogélio Rodríguez de Bretanha, escritor e jornalista também no México, forom alguns dos naturais da Galiza que participarom nesses actos. Homenagem à língua em Filosofia e Letras A escritora e educadora argentina Julieta Gómez Paz falou na Mensagem do Idioma Galego. Depois o Prof. alemam Fritz Krüger expujo acerca da "Galiza vista por um estrangeiro", que conhecia através de longas viagens por terras galegas. Este fundo conhecedor da linguística e etnografia galega cobrou recentemente notoriedade a partir de investigações que provariam ter sido um agente da inteligência nazista antes e durante a guerra mundial, circunstância absolutamente desconhecida naqueles momentos, nom só pola colectividade galega, senom também polos políticos republicanos ali presentes. O acto concluiu com a dissertaçom de Gerardo Álvarez Galego sobre "Rosalia poeta da dor". O Banquete evocador do de Conjo Na sobremesa dixerom afervoados discursos Marcial Fernândez, delegado do México e vicepresidente 1º do Congresso; José Velo Mosqueira, de Caracas; Gerardo Álvarez Galego, da Havana; Emílio Gonçález López, de Nova Iorque; Ramom Suárez Picalho, do Chile; Joam Martínez Castro, delegado de Montevideu e 1º secretário do Congresso. Também falarom o presidente do Centro Republicano Espanhol de Buenos Aires, Sr. Antonio Hurtado, e o político argentino Crisólogo Larralde. Outras celebrações e homenagens Para além doutras considerações, este Congresso, hoje talvez esquecido, foi um fito na história da Galiza toda. Recolheu a atençom de próprios e estranhos. Temperou o espírito de amor à Terra e produziu um forte sentimento de identificaçom nos galegos da diáspora. Nom passou desapercebido para os que na Terra mantinham aceso e coberto o lume pátrio. E nom passou desapercebido para os agentes do regime imperante na península. Num plano bem concreto, todos os participantes galegos se expressarom, bem ou mal, na sua língua, dum jeito tam maciço como havia tempo nom se vira. Nom passariam muitos anos antes que se desenvolvessem os cursos de idioma de AGUEA, e depois os de Branco Amor, etc. A semente fora semeada. O RATO DA LIVRARIA 1 "Na história do civismo galego que vai do seu surgimento em 1808, com a criaçom da Junta Suprema de Governo da Galiza, até a sua última manifestaçom no plebiscito do estatuto galego em 1936 o Banquete de Conjo sobressai pola alta significaçom e longa transcendência. Foi um facto singelo e aprazível, e contodo a sua fama e influência forom mais altas que a dos movimentos revolucionários dos liberais em 1815 e dos constitucionalistas em 1820, mais que a luita contra os carlistas na terceira década daquele século e que o levantamento federal no Ferrol em 1872. Só a revoluçom de 1846 se lhe pode emparelhar". Este juízo é o do Congresso, assinado por Suárez Picalho, F. Regueira, R. Prada e M. Porrua. Depois viriam opiniões divergentes, como a de José Ramom Barreiro Fernândez, na sua "História da Galiza", Galáxia, Vigo, l981, t. 4, pág. 7, que nom acha dados concretos nas palavras pronunciadas nele que justifiquem aquela tradiçom galeguista. Os documentos às vezes nom traduzem os sentimentos nom explícitos que flutuam n a conjuntura histórica. 2 Hoje "Centro Galicia", produto da fusom dos quatro centros provinciais.
DE ONOMÁSTICA GALEGO-ARGENTINA
I NOMES DE FAMÍLIA GALEGO-PORTUGUESES. LINHAGENS GALEGAS 1. 1 A língua galego-portuguesa tem, como principalíssima representaçom a nível mundial, o acervo de apelidos ou nomes de família nascidos no seu seio e do seu génio específico. De diversa origem, os nossos nomes derivam, fundamentalmente, como em todo o ocidente europeu, da patronímica e da toponímia e, em proporçom menor, de outras fontes (de ofícios, de características pessoais físicas ou morais, do mundo vegetal, etc.), podendo afirmar-se que, muito além do biológico, qualquer indivíduo nom galego apelidado, por exemplo, Quiroga (mesmo se de raça africana ou ameríndia fosse, nom descendente geneticamente de galego algum) será galego linguisticamente considerado, pois que ostenta um nome nascido na Galiza.
1. 2 Por outro lado, a Galiza, topicamente qualificada como terra de emigraçom, também gozou e padeceu imigrações de toda classe. Nesse suposto, nom será impróprio considerar linhagem galega a uns determinados Alsinas argentinos, como instalados, enraizados ou nom, que estiverom neste pais do noroeste hispânico, saindo dele, ao cabo do tempo, para, num segundo assalto migratório, assentar-se em terras platenses... nom obstante ser catalã a sua origem genética e linguística (ou ancestral e cultural, segundo preferimos nós). Ora bem, para nom sermos tachados de imperialistas, é preciso perfilar os conceitos para estabelecer que o próprio é referir-se a nome galego no caso de Quiroga e a linhagem galega no caso de Alsina... deixando claro que este é apelido catalam ostentado por determinada estirpe galega (ou catalano-galega), como que foi galeguizado biológica e espiritualmente por vivência e matrimónios sucessivos.
II OS ANTROPÓNIMOS E OS SEUS VAIVÉNS Entre os infinitos topónimos galegos (agora falamos em galegos, pois
que neste ponto existem, evidentemente, os propriamente galegos, além da também evidente
unidade linguística existente nas duas bandas do pai Minho), muitos som antropónimos
(val dizer, pessoais), o qual é frequente nos de origem germânica (sueva), v.g.
Recarey/Recarei. Fenómeno que, modernamente, proliferou nos países americanos chamados
(com antropocentrismo europeu) novos, onde o homem (colonizador, fundador) tem-se passado
criando toponímia a partir de si ou de sua mulher, tanta vez com a dissimuladoramente
útil cobertura de um santo. Polo que, se bem se dá, geralmente o caso de topónimo
europeu/galego (Queiroga/Quiroga) originando apelido e este originando topónimo
americano/argentino (topónimo nome novo topónimo), também se dá o processo digamos
inverso: nome suevo (Recaredo/Ricardo) originado topónimo (Recarei) que, por sua volta,
dará nascimento a apelido (Recarey) todos três europeus ... Apelido que poderia, como
nom, dar lugar a novo topónimo americano (nome topónimo nome novo topónimo); etc., etc. III CASTELHANIZAÇOM/ARGENTINIZAÇOM DOS APELIDOS GALEGOS Tem sido lei escrita de todo império traduzir para a sua língua topónimos e nomes-de-pia e de família forâneos, vício herdado no nosso caso polas repúblicas americanas... quando nom partira a decisom do próprio portador para evitar-se problemas. Essa castelhanizaçom/argentinizaçom pode ir do inteligente ao mais torpe, de tudo o qual há exemplos sobrados nos campos ortográfico, morfológico e prosódico, dos que damos apenas uns quantos. a) Cambiando (o mais frequente e fácil) o s final por z nos patronímicos (bem que esse z também foi galego-português, mas acabou sendo rejeitado pola ortografia lusa): Gomes fixo-se Gómez (o qual nem sequer fazia necessário a sesseante fonética americana). Nem mencionamos as alterações ortográficas noutros casos, como o intercâmbio b/v (v.g. Ribadávia por Rivadavia) ou s/z intervocálicos (v.g. Pazo/Paço por Paso), a tudo isso contribuindo a fonética. b) Eliminando os típicos ditongos ei, ou em Oliveira (Olivera), Souto (Soto) ou Outeiro(Otero). Também aqui há um problema fonético assim como o galego pronuncia claramente esses ditongos, o português, e mais ainda o brasileiro, tem-nos relaxado, limitando-se a fazer fechada a primeira vogal e ou o do ditongo; devendo esclarecer-se todavia que, na sua passagem polas Ilhas Canárias, muitos desses apelidos já sofreram castelhanizaçom, ingressando, pois, deturpados, na América/Argentina. c) Eliminando a maioria das partículas de, do/da/dos/das que indicavam procedência toponímica, como mal menor traduzindo-as (Dos Santos tornado De Los Santos) ou (fraca soluçom, em princípio positiva) mantendo-as mas incorporadas ao apelido (Do Rego volto Dorrego, Da Regueira escrito Darregueyra, Do Val Doval, Do Pazo Dopazo...), ou arcaico costume, semi-incorporando-as, prévia excisom da contracçom de preposiçom e artigo ( Da Cunha de Acuña, Da Costa de Acosta, Do campo de Ocampo, Do Rego de Orrego, Do Barrio de Obarrio, Da Vale de Aballe... ou Do Porto de Oporto, só no topónimo e vinho português). d) Cambiando o incómodo tom esdrúxulo em grave (como em Nóvoa Novoa ou Ínsua Insua), ou o agudo em grave (como em Miguês Miguez ou Casás Casas...). e) Simplesmente traduzindo (o que já se insinuou) com maior ou menor fidelidade ou felicidade: Da Pena De la Peña, Do Porto Del Puerto, Da Serra la Sierra... seriam boas traduções; Coelho Cuello, Da Vila Dávila... som puro dislate; Vilarinho Villarino... seria ũa traduçom regular. (Está por ver-se o De la Rua presidencial é galego ancestral ou, pola contra, tem aqui arribado de outras terras, em cujo suposto seria erro fazê-lo derivar de Da Rua... o que nom quer dizer que nom fosse, por analogia, lícito traduzi-lo para o nosso idioma... como se tem feito com alguns apelidos forâneos, nom com muitos, que saibamos). f) Pronunciando à espanhola, como na mesma Galiza infortunadamente acontece, apelidos como Eixo (Eijo), Sanjurjo, Seixo (Seijo) ou Tojo (obviando-se aqui a velha disputa ortográfica foneticismo vs. etimologismo). (Cumpre aclarar que muitos destes câmbios já se deram tempo antes de ingressar o apelido na origem pola conflitiva convivência entre galego e castelhano. E também ressaltar quanto dificulta isso a identificaçom galega de apelidos assim desfigurados, particularmente no que atinge aos patronímicos: Gómez será castelhano mentres a Genealogia nom mostre que é um Gomes galego-português castelhanizado; Costa pode ser reputado catalano-aragonês entanto que a mesma ciência nom prove que dantes fora um Da Costa galego-português (que, neste caso, com a simples supressom da contracçom prévia perdeu a sua prístina carta de natureza).
Na Corunha, Dia da Galiza Mártir, 17 de Agosto de 2000. JOSÉ MARIA MONTERROSO DEVESA.
Página dos concorrentes às aulas de galego NA PROCURA DAS ORIGENS Trepou os penedos e assentou para recobrar o fôlego. A olhadas bebeu a paisagem de verdes matizes. O outono pronto porá com o seu pincel ocres nela. Um ar acarinhou-lhe as meixelas. Vinha de longe, trocando planuras e rio castanho por rias e pedras. Andou vagarosamente pola beira do Minho lembrando conversas com a mãe. Eis a ponte velha que ela amiúde pisara na adolescência. O adro da igreja estava deserto, mas a fantasia povoou-no com a festa da Virgem das Dores. E o moinho? Onde estaria? Talvez morreu no altar tecnológico. Imaginou a moenda na noite, enquanto o cam guardava a porta. Os passos levarom-na para o cemitério onde avós e tios dormem seu sono na terra. Chiou a cancela, os pés pararom, murmurou ela ũa reza e prosseguiu o caminho. As sombras das cruzes caíam nas lagens. Lembrou a mãe contar-lhe o susto que ũa noite lhe dera ũa mais alta que as outras, debuxada no muro, que lhe figurara um defunto a vagar polas corredoiras. Sem rumo nem pressa, pouco lhe dava dirigir-se à direita ou à esquerda. Deixava as pernas levarem-na. Sentia nom estar só e estarem a acompanhá-la os que nessa terra tinham dantes vivido. Chegou à gândara. Depois a mouta cobriu a terra que agora virava em atoleiro. A humidade penetrou-lhe o calçado. O zunir dos insectos enchia o ar. Atravessou com dificuldade o lameiro e ao cabo descansou embaixo dũa rocha que parecia ali posta a propósito. A letra ũa cantiga que ouvira quando pequena acordou-lhe na memória: ... ai, ruada, ruadinha! vinde, moços e moças, à foliadinha!... HELENA CAROLINA
LEMBRANÇA Era ũa vez um pequeno que num passeinho conhecera um artista pintor no Monte da Espenuca, vizinho à sua casa, em Coirós de Arriba. Dia a dia, o pintor e o neno coincidiam no lugar, que eu imagino mágico, até que ao cabo um dia o pintor lhe perguntou: "Queres ajudar-me a pôr as cores na paleta? Ao que Manuelinho respondeu de bom grado que sim. Daquele momento adiante o pequeno lembrava sempre dentre todas as cores particularmente o amarelo de Nápoles. *** Longe ficou a infância e também longe Galiza. Já na Argentina, ũa tardinha passeava Manuel pola rua Florida quando num escaparate viu exposta ũa pintura que o chamou com força. Nela via-se o Monte da Espenuca. O artista que conhecera na infância estava em Buenos Aires a expor as suas obras. Nunca saberei o nome do artista. O que é que sei é que o neno que tanto gostava do amarelo de Nápoles vive em mim, a sua filha, cada vez que preparo a minha paleta e sonho com algum dia pintar a velha e doce paisagem galega. ESTRELA VARA (Colaboraçom de Manuel Iglésias Iglésias) Síntese biográfica de personagens medievais da Galiza. Conheçamos os nomes de algũas mulheres: A MONJA EGÉRIA: Peregrinou aos Santos Lugares a fins do século IV, e é autora de um livro Peregrinatio ad Loca Sancta , necessário para conhecer ritos e costumes eclesiásticos daqueles primeiros séculos da igreja. A sua vida foi comentada por um santo da Galiza daquela época, Sam Valério. MARIA BALTEIRA: S. XIII. Soldadeira que cantou em galego, famosa pola sua beleza. Louvarom-na os grandes poetas dos cancioneiros ou fijerom escárnio dela, segundo os seus humores. Foi companheira do poeta da comarca de Betanços, Pero de Ambroa, e de velha peregrinou a Terra Santa. Nos nossos dias dedicou-lhe um formoso poema Lourenço Varela, num álbum editado em Buenos Aires. Estudou-na minuciosamente D. Ramóm Menéndez Pidal. MARIA CASTANHA: S. XIV. Figurou à frente do povo de Lugo na rebeliom do ano 1386, contra o bispo D. Rodrigo Ibáñez que foi expulso da cidade, transformando-se nũa personagem legendária, cuja fama chega aos nossos dias por meio de um dito popular na península, é dos tempos de Maria Castanha . INÊS DE CASTRO: S. XIV. Nobre galega, casada secretamente com o rei D. Pedro de Portugal, viúvo de Dona Constança, 1354, e morta polos cavaleiros da Corte portuguesa. O rei fijo-lhes fazer juramento de rainha depois de morta. Desde aquela até hoje foi motivo de inspiraçom de escritores e artistas. Fijerom-se com a sua tragédia obras de teatro, poemas, quadros e balés. O NOSSO AMIGO O DOUTOR JOSÉ GONÇÁLEZ VARELA O 11 de dezembro passado partiu-se de nós o amigo José Gonçález Varela, médico fisioterapêuta eficaz, grande caçador ecologista, desportista temerário, grande conhecedor da natureza e dos animais, afeiçoado à cultura de árvores, galego filho de Tui nado na Argentina visitava o torrom quase todos os anos e frequentador por muitos anos das aulas portenhas de galego reintegrado. Os achaques afastaram-no-lo a maior parte do 2000, mas foi com dorida surpresa que soubemos pola família do passamento. Nascera o 24 de abril de 1914 na Argentina, de pais tudenses vindos a América a fins de 1890, onde prosperaram. José era o maior dos três irmãos (Alberto e Delfina também viajam a Tui assiduamente). No ano 1925 os pais puderom reinstalar-se na Terra com os filhos. Em Ponte-Vedra fijerom estes o bacharelato. Preparava José o ingresso a advogacia no '36 quando os sinais premonitórios da guerra civil junto dos conselhos de amigos decidirom a família partir novamente. Facilitavam-lho a economia e o caminho sabido. Alberto tinha vocaçom clara; é anestesiologista reconhecido, feito na equipa do Dr. Henrique Finochietto, mestre dũa das três grandes escolas mundiais de cirurgia no seu tempo. O exemplo de Alberto e doutros amigos levou José a tentar também o caminho da medicina; que transitou galegamente. Às vezes a olhada ingénua vê o todo melhor do que a mirada técnica mais documentada. Queremos dizer nom som palavras de circunstância que o nosso Doutor José nos aparecia mais amante da natureza que da glória, mais compostor que zeloso académico, mais ávido de vestir-se de xamã que de enroupar-se de prestígios científicos, mais ansioso por curar que de cobrar. Certo é que os amigos das aulas de galego pouco lhe víamos o rol médico. Participava nas aulas quase sempre acerca das árvores, animais de caça e páxaros: tinha notória afeiçom à etologia e Konrad Lorenz era um dos seus autores favoritos. Do seu espírito desportivo e aventureiro também sabíamos pouco: apenas ũa tangencial referência à façanha que cometera no '64, já cinquentom, descendo em canoa as cachoeiras e fervenças do Minho. Agora vinhemos saber que o fijera, junto dum amigo, sem experiência prévia, na madurez, sem colete salva-vidas nem capacetes. Ũa total inconsciência, diríamos naquele momento, de ter estado ali. Decerto ũa vida nom acaba na morte; redondeia-se. Nesta altura dá mais fácil ver-lhe o perfil. Era um médico atento a todas as vias de curaçom, mesmo essas às vezes preteridas e chamadas "alternativas"; atento sem ânimo venal, com rigor hipocrático. Por vezes parecia fruir de ver-se antes como "bruxo" que qual profissional de estrito cunho académico. Da eficácia curadora falam seus pacientes, alguns deles conhecidos nos cursos. Essa abertura mental na verdade nom é infrequente na medicina galega e cabe atribuí-la ao pendor da psique galega para o âmbito inconsciente. Com tanto passado nom digerido para atender, a reclamar a atençom, difícil é nom escuitar as vozes que venhem de abaixo. Dói-nos nom ter resgatado no momento oportuno mais espaço para conhecer-lhe a rica vida. Por caso, fora amigo do José M. Blázquez, o grande historiador e estudioso das religiões antigas. A seguir transcrevemos ũas notas de seu irmão Alberto na parte que refere a tola descida polo Minho abaixo, notas que datam do ano passado, José ainda vivo. PRIMEIRA DESCIDA EM BARCA DE LONA POLAS CORREDEIRAS DO MINHO Dous tolos de Tui, amantes do rio, conceberom no '64 a ideia de descer o rio Minho em barca de lona1 no trecho de corredeiras entre Barbantes e Arvo, descartando o Minho sem as águas do Sil, de Fominhã aos Peares, onde é rio represado, e também o Minho de navegaçom fácil entre Arvo e a foz. Os tolos eram o saudoso amigo Venâncio López Lourenço e meu irmão Pepe. Somando as idades dos dous, nesses momentos faziam o século. Era primavera, no maio do '64, quando acordarom entusiasmados ser os primeiros em fazer aquela descida. Entusiastas apesar dos cinquenta anos que levavam acima, enque amiúde encirrados com "pancadas", como lhes dizíamos às brigas com que trivialmente matizavam a amizade. Depois de longos conciliábulos, decidirom adquirir em Ponte-Vedra a barca da odisseia. Eu encarreguei-me de adquirir um porta-bagagens para transportar a canoa no teito do velho automóvel que alugara meses atrás. Ũa tarde escura que ameaçava tormenta partimos os três para Ponte-Vedra. Lá estivemos a explorar a zona ribeirinha sem dar com o que buscávamos. Já contrariados, ao cabo num escaparate do centro da vila vimos ũa bonita pirágua, que a mim me pareceu frágil demais e minimamente funda. Mas os aventureiros estavam exultantes e decontado decidirom comprá-la, sem ver que com o peso a borda estaria a poucos centímetros da tona da água. Além disso, nom lhes passou pola cabeça usar capacetes nem jaleco salva-vidas, que hoje vemos ser de uso indispensável neste desporte. A primeira vez que entrarom na barca, esta inclinou-se enchendo-se de água, mas pronto aprenderom a manter o equilíbrio. Aquela tardinha antes que escura era negra, pola torrencial chuiva trovoada que veo ensopar-nos. O Venancinho por confortar-nos convidou-nos a cear nũa excelente taverna. A comida foi extraordinária: havia vieiras, ameijas, percebes... Lembro ter comido entom o melhor rodovalho assado da minha vida, todo regado com bom vinho, cuido que do Roçal. De sobremesa, tarta de amêndoas de Ponte-Vedra. Venâncio a cada momento me repetia: "Gostas, Albertinho?" Trás cear opiparamente, de coraçom contente, empreendemos o retorno a Tui perto das doze. A chuiva espessa e o vento forte prosseguiam qual se nunca fossem parar, tanto que, ao chegar ao alto de Pucheiros, o vento embolsava a barca no teito e o coche abalava como se fosse levantar voo... Só chegando a Porrinho respiramos. Depois, nas gândaras amainou a chuiva, tornou a tranquilidade, e na recta os precários faróis do coche já eram suficientes. (Dous anos antes neste lugar2 vivêramos um passo terrível que ainda me estremece. À altura da Cerâmica M.A.S., vindo de noite de Vigo no nosso Dodge, o condutor creu que poderíamos cruzar as vias do trem antes que chegasse o comboio que longe pitava furioso. Certo que o carburador já vinha falhando, mas ninguém pensou que colapsaria justamente nas vias e pararia ali de rodas encaixadas. Qual num pesadelo, parou o motor nas vias e o trem avançava rapidamente. Abel o motorista era fortíssimo. Desceu e desesperadamente pujo-se a abalar o auto até descalçar as rodas dianteiras. Entretanto, minha mãe, tia Pura, Delfininha e mais eu, sentados atrás, atrapalhados nas portas pugnávamos por sair. O trem passou veloz coçando de leve o guarda-lamas dianteiro... Por pouco nom desaparecem os Curinhas3 americanos de Tui, como nos chamavam.) De regresso a Tui com a canoa, ainda pudemos tomar um cafezinho no café da Corredeira, servido por um garçom cujo nome nom posso lembrar por muito que cismo: era calvo e cambado. Ao dia seguinte fijemos os planos da perigosa empresa. Venâncio, que muito passara na guerra, era o conselheiro e organizador principal. Assinalou a necessidade de adquirir um adesivo ou pegamasso especial e anacos de lona para as rachaduras que na canoa fariam as pedras e rochas das corrredeiras. Incumbidos eu e Pepe de conseguir as lonas que tapariam os eventuais furos, fijemos pouco por achá-los. Sem os parches, ao Venâncio deu-lhe a grande "pancada" e decidiu deixar o projecto. O dia da partida, de manhã, sentados nós num banco da Marinha olhando para o rio, Venâncio virado de costas e em silêncio, de cara apoiada na mão direita. Eu fazia o possível por acalmá-lo. Pepe, calado, nom sabia como sair do beco em que nos pujéramos. Depois de muita cerimónia, Venâncio acedeu, como neno grande que era, de fácil trânsito da brincadeira ao enfado e vice-versa. Fixado outro dia, a barca no teito do coche, Venâncio, Pepe, o amigo Pio e eu partimos cedo para a Caniça. Lá tinha eu gente amiga, a família da viúva de Alonso, que tinha ũa hospedaria onde eu passara ũa temporada para repor-me dũa corticopleurite que na verdade era tuberculose. A viúva tinha quatro filhas. Lembro ũa delas, mui boa moça, chamada Aurora. Quando convalescia, eu teria catorze anos e nom fazia mais que mirá-la. Bom, ao chegarmos com a barca, jantamos ali um magnífico cozido. Dali fomos para Ribadávia, onde por fortuna na estaçom do trem conseguimos os anacos de lona, o que já nos tranquilizou. Prosseguimos o caminho até Barbantes, onde paramos nũa praia pequena. Ali arrumarom na canoa as grandes bolsas de plástico que continham a roupa, ũa lanterna, mezinhas e pomadas, adesivo, navalhas, cordas, etc., e embarcarom radiantes. Já dixem que nos primeiros metros lhes entrou água pola borda, até aprenderem a manter o equilíbrio. Depois alongarom-se contentes e nós outros partimos para Tui bem preocupados. Três dias passamos sem notícias. Ao cabo do segundo, Manolo Vásquez Ferrucho, amigo dos chefes das estações abeiradas ao rio, falou por telefone com um: "é, polo rio abaixo vâm dous alemães tolos queimados." Como isso fora nom longe de Arvo, ao dia seguinte ali fomos eu, Ferrucho, Caldo-Limpo e Pio, para certificar-nos do que havia. Passamos toda a manhã a esculcar o rio com um binóculo potente que eu tinha. Estivemos horas nũa grande volta do rio, que ali ensanchava, lugar precioso de viçosa vegetaçom. Quando mais desapercebidos estávamos, lá longe notei na água algo como ũa formiguinha, que crescia devagarinho. Eram os nossos heróis. Mas ainda decorrerom ũas três horas antes de chegarem a Arvo. Lembro o bom do Pio meter-se na água cheio de entusiasmo por antes abraçá-los, esquecendo que nom sabia nadar. Pouco faltou para que afogasse. As palavras nom chegam para pintar o espantoso estado que ostentavam os desportistas loucos, requeimados do sol e do reflexo, edematosas as caras dos golpes nas pedras cada vez que a barca se afundava ou topava contra ũa rocha... Nomeadamente o rosto do Pepe parecia dum hipopótamo de duas cabeças, edemático e esfolado. Venancinho, que era magro, tinha a cara dum obeso. Os pés, tumefactos, escoriados e feridos. Os ténis de caucho, e os de reserva, estavam desfeitos de tanto frear com eles quando chegavam a ũa queda pensa ou quase vertical. Às vezes encalharam a barca nũa praia próxima por nom quebrar a cabeça entre os penedos. Moços banhistas ajudavam-nos a carregar a canoa por terra para salvar quedas perigosas e recomeçar a navegaçom abaixo. Outras, virom-se arrastados pola corrente às fervenças, das que por fortuna saírom com vida, feridos e exaustos. (Anos depois, Pepe contou-me que ao chegar a Ribadávia tam esgotados estavam que ficarom dormidos no chão dũa tasca. Dixo-me que quase houverom de nom prosseguir.) Tam cansos chegarom que, sem veículo justo, devemos deixá-los dormir na taverna dũa boa gente na beira do rio, nom sem antes cear ũa grande tortilha de meijões (angulas), púberes polo porte. Ao outro dia, pegarom a volta para Tui, aonde chegarom à ũa da tarde. Toda a vila sabia da odisseia. Pasmos vimos a multidom que veo aguardá-los. Caldo-limpo, o Manolo do estanco da Corredeira, pujo smoking para recebê-los. Aguardávamo-los com ũas grandes e suculentas empadas feitas por Luís Casanova. A festa foi memorável. Decorridos tantos anos, muitos moços desportistas procuram emular aqueles heroicos precursores sem saber deles. Hoje os jornais anunciam as descidas, estas fâm-se com equipas seguras e técnicas actuais, os triunfadores ao cabo recebem prémios que se difundem nos meios. Há salva-vidas, capacetes e barcas de plástico, e partem de Salvaterra do Minho: a carreirinha de cam. Aquilo foi ũa grande imprudência, da que saírom vivos decerto pola protecçom de Sam Telmo, padroeiro nas tormentas, das águas e de Tui. Alberto Gonçález Varela 1 Logo similar aos coracles (curach, cwrwgl, <*korukos) que ainda se vêm nas ilhas britânicas. Por Estrabom sabíamos também ter sido usadas dos nossos avós pré-romanos. Informa o Dr. Alberto Gonçález Varela que a procurada em Ponte-Vedra era ũa desportiva, comum ainda há dez anos na navegaçom fluvial, depois substituída polas plásticas. Curiosa continuaçom nom tradicional das antigas de coiro. 2 Na altura de Salzeda de Caselas, onde a estrada cruza as vias. 3 Curinhas é a alcunha familiar dos Gonçález. Conforme tradiçom familiar viria de ao menos dous séculos e aludiria à veste dos estudantes antigos.
A EXPROPRIAÇOM DOS BENS DE CASTELÃO Dous expedientes de responsabilidades políticas e civis abrirom o processo de expropriaçom de todos os seus bens artísticos e privados... O desaparecido advogado Modesto Rodríguez Figueiredo apossou-se dos sumários e depositou-nos, antes da sua morte em 1976, no Colégio de Advogados de Ponte-Vedra. Quase um quarto de século depois som publicados por esta entidade. O 17 de agosto de 1936, o mesmo dia em que morria fuzilado Alexandre Bóveda, o julgado de Primeira Instância de Instruçom de Ponte-Vedra abria ũa investigaçom, por ordem da Comissom de Expropriaçom de Bens, contra Afonso Rodríguez Castelão e o dirigente socialista pontevedrés Amado Guiance Pampim. Tratava-se de clarificar responsabilidades destes líderes frentepopulistas nos dias do alçamento militar. Com tal motivo, o juiz Serápio de Casero abre expediente e pede informes às autoridades. Ernesto Baltar, alcalde da cidade, eleito polos militares golpistas, no ofício de resposta di simplesmente que sabe que era deputado da Frente Popular, e coincide assim com as declarações da Guarda Civil. No entanto a Delegaçom Militar de Ordem Pública afirma que nom existem antecedentes de Castelão. Pola sua parte, o corpo de seguridad y vigilancia denuncia no seu escrito que Castelão fijo parte em Outubro de 1934 do Comité Central de Nacionalistas Galegos, qualificado pola polícia pontevedresa de "separatista e esquerdista", aliado dos nacionalistas de "Vascónia e Catalunha". Tais informes som considerados polo juiz em Novembro de 1937 como indício de responsabilidade, polo que "deve decretar e decreta" o embargo dos bens de Afonso Castelão por pertencer ao Partido Galeguista, segundo ele de "extrema esquerda". O 20 de Janeiro requer a Joaquina Castelão Gemme, a sua mai, que apresente o testamento do seu homem, Mariano Rodríguez Dios, que é do ano 1923, e no que o testador manifesta a vontade de proteger as suas filhas como mais débeis, ante a posiçom independente de Afonso Daniel. Lega a este as despesas geradas pola sua carreira de médico e os presentes de boda, ao tempo que melhora as suas filhas. O julgado de Padrom é quem cursa esta ordem de expropriaçom de bens a par que pede informes sobre as actividades de Castelão e do seu coirmão Mariano Outeiro Castelão durante a República. Peró a testemunha definitiva polo seu peso contra Castelão foi a do capitam da Guarda Civil, desde 1933 em Vigo, o madrilense Francisco González Domínguez, que compareceu perante o Julgado de Ponte-Vedra apresentando ũa denúncia na que afirmava Castelão ser um caricaturista que expulsaram do Faro de Vigo por causa dos seus perigosos desenhos. Dizia de Castelão que "foi um propagandista acérrimo da Frente Popular, deputado a Cortes polas esquerdas e propagava mui especialmente as ideias do galeguismo." Mesmo chegou a anexar ũa fotografia de grupo que, segundo ele, confirmava todo o denunciado "sendo perigosíssimo tal político, propagandista e periodista, pois para conseguir os seus fins nom repara nos meios da calúnia, injúria e difamaçom. Também solicitou o juiz informes da Falange de Madrid, que enviou um escrito no que acusa Castelão de ser autor dũa suposta proposta parlamentar de expropriaçom dos paços galegos, além de qualificá-lo de "ateu, ainda que antes de direitas e grande católico, e com vida pública má." Paralelamente a este processo civil, Castelão foi vítima doutro processo por responsabilidades políticas, que em Maio de 1940 as autoridades judiciais decidem acumular ao civil. Entretanto, os informes continuam até que em Setembro de 1940 o Presidente do Tribunal , Eduardo Martínez Nieto, dita ũa sentença que recolhe toda a versom do capitam da Guarda Civil de Vigo, somando ũa nova acusaçom por ter editado "folhetos com alegorias de crimes arrepiantes que, dizia, eram cometidos polos exércitos nacionais, existindo algũas dessas caricaturas na alcaldia de Ponte-Vedra." A redacçom de sentença remata afirmando a condiçom de nom maçom de Castelão, e dizendo que actualidade vivia em Nova Iorque. O 1 de Fevereiro de 1937 começou a diligência do embargo no domicílio de Castelão e Virgínia, e a espoliaçom durou oito jornadas e forom recolhidos 610 objectos ou grupos de objectos. Desde o 24 de Fevereiro desse ano, José Lino aceitou ser depositário das alfaias de Castelão, ao tempo que no Museu de Ponte-Vedra o seu director, Casto Sampedro, se pujo a disposiçom da autoridade, retendo as obras de Castelão ali depositadas. A biblioteca de Castelão passou a fazer parte da Biblioteca Provincial, a solicitude da Deputaçom perante o julgado. Apesar da relativa rapidez de todo o processo de expropriaçom de bens, este propriamente nom começa até 1949, fazendo-se efectivo de todo no ano em que Castelão morre, 1950. Quando às obras artísticas, António Lino, secretário do Museu de Ponte-Vedra, pediu que as obras depositadas no Museu de Ponte-Vedra e que se lhe devolvesse a parte proporcional dos depósitos no Banco de Espanha com os seus juros. O 14 de Janeiro de 1963, sendo Fraga Iribarne ministro de governo, declarasse improcedente tal reclamaçom. (X.E.A., O espólio de Castelão, em A Nossa Terra, nº 931, 20/IV/2000, pág. 21). EXPOSIÇOM DA OBRA DE SEOANE NA ARGENTINA No 2000 a obra de Luís Seoane viajou além-mar, da Galiza à Argentina, tal qual outrora gerações de galegos e o mesmo autor fijeram em procura da liberdade negada na própria terra pola ditadura. Dessarte, o Museu de Arte Moderna de Buenos Aires (MAMBA) acolheu a exposiçom produzida polo Centro Galego de Arte Contemporânea (CGAC) dum dos grandes criadores da plástica galega, fundador, com o industrial e intelectual Isaque Diaz Pardo, do Laboratório das Formas da Galiza, ovo da actual Fábrica de Sargadelos. Durante os meses de julho e agosto desse ano a grande quantidade de pessoas visitou a retrospectiva "Luís Seoane: pinturas, desenhos e gravuras 1932-1975" no MAMBA. A mostra inaugurada na Galiza em dezembro do 1999 foi a mais importante de Seoane na Argentina desde a realizada no ano de 1981 polo Museu de Belas Artes de Buenos Aires. Após a partida de Compostela, a colecçom de obras medrou, pois que em Buenos Aires se nutriu com peças de colecções privadas existentes na Argentina e da colecçom de gravuras de Seoane de propriedade do próprio MAMBA. A condiçom itinerante da retrospectiva levou-na depois, desde o 5 de outubro do ano passado, ao Museu Provincial de Belas Artes Emilio Caraffa da cidade argentina de Córdova. ERNESTO SABATO E AS LÍNGUAS MATERNAS O jornal catalam AVUI entrevistou há pouco o escritor argentino Ernesto Sábato. Nessa ocasiom o escritor perguntou-se acerca das razões que determinam deixar de escrever na língua materna e continuar a fazer literatura n a outra, referindo-se concretamente ao caso galego: "O mecanicismo e o cientificismo ocupou-no todo. Esta mania de unificar cousas, quando já me dirâm que tem que ver um galego, um catalam e um andaluz, ou um napolitano e um milanês. Eu defendim muitíssimo as línguas. De Rosalia de Castro escrevim um livro e tenho discutido com muitos escritores galegos, como Camilo José Cela, ao que lhe reprochei ter abandonado a sua língua, tam rica e cheia de matizes. Nom entendo como se pode abandonar a fala e a escrita próprias. Abandonou-se a riqueza oral dum jeito incompreensível." (Tomado de "O incompreensível abandono da língua", em A Nossa Terra nº 953, 21-IX-2000, pág. 33). FAUSTINO SANTALICES Morto em 1960, Faustino Santalices e a sua magna obra de investigaçom sobre a gaita continua a ser vastamente desconhecida no próprio país. A editora Ir Indo vem de publicar a biografia dele escrita polo músico de Milhadoiro Antom Seoane. Nela descreve seu percurso de investigador, gaiteiro e sanfonhista. Santalices recebeu em 1949 o Primeiro Prémio Internacional de Instrumentos Clássicos Populares e foi director do primeiro obradoiro-escola de instrumentos tradicionais galegos que se abriu em Lugo por 1952. Seoane, grande músico ele também, reconhece que nom teria podido dar cima à obra sem a memória "lúcida e generosa" do filho do biografado, do mesmo nome. (Tomado de A Nossa Terra nº 949, 24-VIII-2000, pág. 23) PARA UM GALEGO CIENTÍFICO Carlos Garrido Rodríguez, professor da Faculdade de Humanidades e Traduçom da Universidade de Vigo, é autor do Manual de Galego Científico, volume dirigido a investigadores, docentes e estudantes das ciências experimentais. Com esquema similar ao da obra do catalam Carles Riera que também assina o manual , o professor Garrido oferece "ũa série de apontamentos terminológicos destinada a esclarecer o correcto emprego de numerosas vozes galegas de interesse científico, cujos genuínos valores semânticos se vêm hoje seriamente comprometidos pola pressom do castelhano." O Doutor Garrido Rodríguez é o autor do Dicionário Terminológico Quadrilíngue de Zoologia dos Invertebrados. SIMPÓSIO CARVALHO CALERO Vem-se de celebrar na Corunha e o Ferrol, os dias 23, 24 e 25 de novembro do 2000, o Simpósio Ricardo Carvalho Calero, que pediu das instituições públicas a divulgaçom e promoçom da obra de Carvalho Calero, e que a Academia Galega lhe dedique o Dia das Letras Galegas do ano 2001 [Sabemos que nom forom escuitados]. Boa parte da mocidade a começar os estudos universitários na Faculdade de Filologia da Corunha no momento de ali celebrar- -se as duas primeiras jornadas do simpósio nunca antes ouvira do Dr. Ricardo Carvalho Calero e ante os cartazes do simpósio perguntavam-se quem era aquele ao que se dedicava um congresso e se dava o qualificativo de "memória do século". Ao fazer-se dez anos do seu passamento, o silêncio de que tentam rodeá-lo, a ele a à sua obra, contrasta vivamente com a surpresa da sua descoberta, tal qual se verificou nesta ocasiom. HOMENAGEM A NORIEGA VARELA Na série As Nossas Vozes, que edita o Conselho da Cultura e o Arquivo Sonoro da Galiza, inclui-se ora o livro e CD "Homenagem a Noriega Varela" de Outeiro Pedraio. A gravaçom data do 1º de outubro de 1967 em Mondonhedo. A voz de Outeiro Pedraio, quase octogenário, soa emocionada quando, ao referir-se ao "Poeta da Montanha", o evoca como "um homem grave, sério, maino, como ũa carvalha da terra luguesa, ũa carvalha cujo cerne é sempre eterno e sempre fresco e sempre namorado e sempre gentil." PESCANOVA E A CULTURA DO SALMOM ROSADO NA ARGENTINA A multinacional de origem galega Pescanova vai investir 15 milhões de dólares num projecto de aquicultura destinado a produzir salmom rosado na província argentina de Santa Cruz, na Patagónia. Fijo o anúncio oficialmente há pouco o secretário argentino de agricultura, pecuária, pesca e alimentaçom, depois de reunir-se com Vítor Tarigo, director de Pescanova para América Latina, e com Jaime Pérez Pena, director gerente na Argentina. Pescanova tenta pôr em funções ũa planta similar à que já tem no Chile. Calcula-se em cinco anos o prazo para o investimento dos quinze milhões. 50.000 alevinos já forom introduzidos para a planta patagónica, na que usará a mesma tecnologia que emprega no Chile e usará a água doce do lago Buenos Aires e a salgada das rias de Puerto Deseado e San Julián. Estimam que a prazo médio se poderá produzir as 20.000 toneladas de salmom com um saldo de exportaçom de 200 milhões de dólares ao ano. Hoje o Chile exporta produtos da aquicultura por mil milhões de dólares anuais. Pescanova conta com 3000 empregados e 120 navios a pescar em todo o mundo, incluída a plataforma continental argentina.
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